Conect@ - número 2 - setembro/2000


Tecnicismo: uma página virada na história da EaD?

Daniela Doria

Pedagoga

Especialista em Tecnologia Educacional

Pós-graduanda em Educação a Distância


Leia também outro texto da autora


A Educação a Distância tem ocupado quase que diariamente as páginas de vários jornais brasileiros. Reconhecida através da lei 9394/96, essa modalidade de ensino vem ganhando novos aliados nos meios acadêmicos e empresariais. Podemos até considerar essa legalização tardia, se citarmos as cartas de São Paulo aos apóstolos como um exemplo de educação por correspondência.

No Brasil, a primeira experiência de vulto ocorreu na década de 60, com as 6.218 escolas radiofônicas do Movimento de Educação de Base (MEB) (Cunha, p. 28).

Cabe ainda lembrar, os caminhos da Educação a Distância percorridos na década de 70, quando se privilegiou a técnica, transformando professores e alunos em personagens secundários. Essa fase denominada tecnicista trouxe a EaD descrédito e desvalorização que acabaram por conduzi-la ao ostracismo (Zentraf).

Justamente por esse desaparecimento de mais de duas décadas, falta-nos intimidade com a EaD, elemento este fundamental para a execução de novos projetos que tenham a qualidade como condição.

Um outro detalhe, de igual relevância, que pode ser visto como um desafio, dispomos agora da Internet. Por suas características, a rede oferece recursos que podem ser positivos para a aprendizagem, tais como e-mails, fóruns de discussão, chats e páginas www, com seus recursos de vídeo, som, texto e hipertexto.

Efetivamente, a Internet abre muitas possibilidades pedagógicas, mas alunos e professores ainda têm muito a aprender para retirar dela benefícios. Diante da grande quantidade de projetos envolvendo a Internet que vemos surgir todos os dias, isso se torna urgente, antes que fracasso e educação a distância novamente tornem-se sinônimos.

O conceito "a distância" vem sendo adotado de forma indiscriminada nos variados cursos oferecidos na Internet. Muitos deles gratuitos, o que eleva o índice de inscrição. Aqui, enfatizo a palavra inscrição, pois a conclusão desses cursos é uma outra questão, que pretendo destacar.

Um curso a distância não elimina a presença do professor, pois caso isso ocorra, passaria ele a ser uma simples distribuição de textos. Há diferenças profundas entre o presencial e "a distância". Com a grande oferta de espaços gratuitos de hospedagem e a simplicidade dos softwares geradores de códigos HTML, os cursos "on-line" na web proliferam assustadoramente. Mesmo quando oferecidos nos grandes provedores de acesso, ou websites universitários, o que poderia nos levar a imaginar que profissionais especializados estivessem envolvidos, as diferenças entre o real e virtual não são respeitadas.

Isso pode nos levar a crer que o capítulo da Educação a Distância tecnicista talvez não seja uma página virada como gostaríamos e deveria ser. Se os padrões de qualidade de um curso se resumirem ao fato dele estar disponível na Internet, com efeitos especiais criados em Flash ou Java, estaremos apenas re-editando o mesmo capitulo ou fazendo seu remake.

Bibliografia

CUNHA, Luiz Antônio. e GÓES, Moacyr de - O Golpe na Educação. Coleção Brasil: os anos de autoritarismo, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985.

ZENTGRAF, Maria Christina - A Educação à Distância, a nova lei do ensino e o professor. Curso de especialização em Educação a Distância, Centro Universitário Carioca, Rio de Janeiro, 2000.

Leia também outro texto da autora:

Desaprender a ensinar para aprender a aprender