Conect@ - número 3 - novembro/2000


FEMINISMO CIBERNÉTICO E EDUCAÇÃO NA ERA DO EXÍLIO DO ESPÍRITO

Ilan Gur Ze'ev 
Faculdade de Educação
da Universidade de Hayfa. Israel.

Tradução de Newton Ramos de Oliveira 
Prof. da Unesp/Araraquara e pesquisador do CNPq

Artigo gentilmente encaminhado por
Raquel de Almeida Moraes 
UnB - Faculdade de Educação



Teórico-críticos importantes e das mais diversas orientações já enxergam hoje realizável a promessa de democracia radical e de produção, distribuição e consumo de bens e conhecimentos. Pensadores tão diferentes como Lyotard, Ellsworth, Landow, Burbules, Standish e Haraway concordam quanto a novas possibilidades para que o indivíduo seja um criador e um participante autônomo, uma realidade que abre novas oportunidades para todas as pessoas que compartilham a internet.  “A autoridade, como hoje conhecida, vai mudar de maneira drástica”[i] ¾ diz um; a democracia radial está prestes a efetivar-se na Web, alega outro.[ii]

Múltiplas e diferentes vozes levantam-se no movimento feminista para reconhecer os novos avanços tecnológicos mas também para criticá-los, outros mostram-se céticos enquanto ainda outros  saúdam com o maior entusiasmo seu desenvolvimento no ciberespaço. Neste estudo, trataremos apenas do aceitação feminista mais considerada, a que chamaremos de “ciberfeminismo”.

As participantes do ciberfeminismo em sentido estrito compartilham todas  dos pressupostos filosóficos pós-modernos  “hard” , enquanto algumas das participantes do ciberfeminismo em sentido mais amplo comprometem-se com a retórica filosófica pós-moderna  “soft”. Estas estão comprometidas com imensidões, a ver o sujeito como uma mera posição nos jogos de linguagem e com o abandono do “significado”, “diálogo” e   “emancipação” enquanto aquelas se comprometem com o diálogo (contextual), com um sujeito emancipado e com a legitimidade da busca de emancipação, democracia e autoconstituição. Não deve constituir surpresa saber que algumas das participantes ficam movendo-se daqui para ali, entre as pós-modernidades  “hard”  e  “soft”.

Nosso objetivo neste artigo é reconstruir criticamente a crítica e a utopia do ciberfeminismo. Defendemos a posição de que, em que pese toda a importância de tal crítica, a linha central é que o ciberfeminismo não representa um avanço para a emancipação feminina  e está longe de contribuir para o incremento da contra-educação que possa desafiar a violência da ordem hegemônica das coisas e de seus ajustamentos educacionais. Defendemos que o ciberfeminismo é parte do sistema que deve ser superado e não uma alternativa radical ao sistema e a sua educação modeladora.+

 

Ciberfeminismo: influências pós-modernas  “soft”   e  “hard”

Há uma concordância geral no ciberfeminismo entre as adoradoras  do ciberespaço a respeito das possibilidades de elementos educativos emancipadores nesse domínio. Compartilham um otimismo  amplo que vê o ciberespaço como uma arena onde  “todas as vozes são iguais” e  na qual os grupos marginais levantam suas vozes para participar  de um ambiente radicalmente democrático. Trata-se de um espaço em que   “o poder se torna imaginário”[iii] , pois “na cultura de simulacros, o essencial é nada e o nada é essencial”[iv]  e nela  “a morte do político”[v]  finalmente  se realiza. Nesse processo, 

“as mulheres se tornam mais importantes ... assim como as máquinas se tornam mais autônomas, assim também acontece com as mulheres. Acho que as mulheres - desde que começam a conectar-se - se sentem mais à vontade com a tecnologia. E, na verdade, a opinião de que o ciberespaço é masculino se revela um mito que é mantido pelas atuais estruturas de poder. Tal mito torna-se crescentemente irrelevante e é apenas uma visão errônea do que está acontecendo:”[vi]

Esta especial versão feminista participa de uma crítica mais geral da cultura ocidental e de sua organização social assimétrica. Explica as hierarquias sociais patriarcais por seu falocentrismo; ataca a posição ocidental centralizada em conhecimentos favorecidos, sua concepção de razão objetiva, suas dicotomais racionais binárias e suas abstrações que permitem, justificam e desenvolvem uma opressiva intersubjetividade na qual as mulheres se subordinavam em todas as dimensões e em todos os níveis de vida. Segundo Sherry Turkle, o ciberespaço abre uma alternativa à opressão simbólica e material, individual e coletiva, que é tradicional no Ocidente [vii] e que, em sua essência, se revela como falocêntrica.

As influências pós-modernas  “hard”  se evidenciam como autoconstituição pós-feminista por algumas ciberfeministas[viii] e como pós-humanas por outras[ix].  Segundo Plant,

“o ciberfeminismo é uma insurreição por parte dos bens e materiais do mundo patriarcal; uma emergência dispersa e distribuída composta de ligações entre mulheres, entre mulheres e computadores, computadores e elos de comunicação, conexões e redes de conectores”[x]

Zeo Sofoulis, outra representante do pós-modernismo “hard” no ciberfeminismo, celebra a conjunção pós-fálica da arte feminina e da  alta tecnologia. [xi] As representantes que sofrem a influência do pós-modernismo “soft” têm pontos de vista feministas de emancipação e recusam serem vistas como pós-feministas ou pós-humanas. No âmbito do ciberfeminismo, Kira Hall reconcilia duas conflitantes reações feministas quanto à comunicação mediada por computadores: a liberal e a radical.

“A primeira, influenciada por discussões pós-modernas sobre a fluidez de gênero pelas teóricas feministas e  “queers”* visualiza o computador como utopia liberante, que não diferencia as dicotomias de macho/fêmea e de hetero/homossexuais... A perspectiva oposta ... tem aparecido no surgimento de numerosas listas e “bulletin boards” que se auto-intitulam como “exclusivamente para mulheres”.[xii]

Para Faith Wilding, o ciberfeminismo é mais do que uma chance de criar novas formulações da teoria e prática feministas: diz respeito às novas e complexas condições sociais criadas pelas tecnologias globais - “trata-se de um ‘browser’ * pelo qual vemos a vida”[xiii]

 

Ciberespaço: novos perspectivas

Examinando-se o otimismo cibernético - do qual o ciberfeminismo é um apêndice - observa-se que o ciberespaço se apresenta como um domínio em que a informação digital é livremente transmitida pela eletrônica, sem as  precondições teóricas, emocionais, existenciais e políticas da cultura ocidental tradicional. É uma arena em que o conhecimento é descentrado[xiv] e a autoridade é suplantada por uma nova “gaia ciência” nietzscheana[xv]. Aqui, a verdade ou a falsidade dessa afirmativa não é elemento constitutivo. Dessa maneira, dentro do ciberespaço apresenta-se como uma função, não como um elemento potencialmente verdadeiro (ou falso), redentor (ou condenatório), que corrige (ou que desvia), ou transcendente.  Está liberado de qualquer requisito por validade universal e não está obrigado a impor-se a um Outro que manifeste sua perigosa potencialidade ao não concordar, ao não ser parte do “nós”, ou do “apenas  “ ou da “verdade”.  No ciberespaço, como um sistema de comunicação descentralizado e não-transcendental, as questões de origem, autenticidade ou conhecimento verdadeiro tornam-se irrelevantes.[xvi] Não há lugar para reivindicação por autoridade dentro desse quadro, que também desconstrói o requisito por transcendência (com orientação patriarcal) do autor [xvii] ou do intérprete legítimo, que normalmente serve para inferiorizar as mulheres e outros Outros  ao mesmo tempo em que fala a seu favor.[xviii] A verdade como idéia constituinte, como suposição, ou como procura erótica, é estranha ao ciberespaço e a seus habitantes. No entanto, o ciberespaço, segundo as ciberfeministas, abre novas possibilidades ao livrar  os tradicionais discursos religiosos, intelectuais, teóricos e filosóficos de muitos aspectos de sua tradicional violência imanente.

De acordo com os ciberotimistas, dentro do ciberespaço não há lugar para a tradicional violência ocidental metafísica ou real. Tradicionalmente, a violência ocidental brota do compromisso do conhecimento ocidental quanto à validade universal e  do  compromisso imanente que sustenta a cerca que separa o verdadeiro do falso, separa os donos de critérios válidos dos donos dos critérios  não-válidos, os sábios dos primitivos. Na “cibercultura”, há lugar para o “ciberpunk”, em cujo centro,  subculturas sublegítimas, alternativas e opostas, freqüentemente estruturadas por um corpo radical de política, sustentam  sua palavra.[xix] Como termo aplicado a amplo conjunto de mídia representacional e práticas culturais  - filmes, estórias em quadrinhos, jogos de representação de papéis (rpg-s), hacking*  e crimes no computador - o  “ciberpunk” está muito ligado ao ciberfeminismo. Nesse cenário, é concebido como “crítica dos discursos tecnoculturais machistas”.[xx] As ciberfeministas têm grande interesse no ciberpunk como manifestação de uma condição pós-humana, que abre novas possibilidades emancipadoras. De importância primordial  aqui é a questão do antifalocentrismo e a busca de uma alternativa feminina total em forma de conectividade. Aqui, suplantar o conhecimento com orientação ao macho, a intersubjetividade e o controle da natureza articula-se numa utopia pós-humana que reflete as influências do pós-modernismo   “hard”: “a cibernética e a engenharia genética  associam-se para desnaturalizar a categoria do ‘humano’ e seu embasamento no corpo físico”[xxi] Segundo as ciberotimistas, o ciberespaço contém vários e conflitantes lógicas, interesses e possibilidades. Traz não só liberdade a todos os diferentes corpos de conhecimentos, tais como os fluidos, os contingentes e os híbridos, como também sacos de reivindicações, proposições e crenças; abre seus portões à representação simétrica de diferentes narrativas e a corpos de conhecimentos. Permite diálogos não-etnocêntricos entre diferenças, seguindo uma linha de argumentação, e, no entanto, encoraja também recepções[xxii] aos diferentes diálogos por  múltiplas perspectivas.  Eis um elemento educativo muito importante do ciberespaço, que abre novas possibilidades para a constituição, representação e aceitação das narrativas de mulheres silenciadas.

Dentro do ciberfeminismo, o abandono das reivindicações “masculinas” por universalidade, eternidade, objetividade e transcendência e por uma validade a priori das exigências  e valores de  julgamento  é de vital importância.  Paralelamente a isto, está o abandono do compromisso imanente tradicional no ocidente em violar a alteridade do Outro e suas verdades alternativas. Nesse sentido, o ciberespaço é um novo ambiente humano, um espaço virtual que se determina por sua abertura imanente. Isto gera uma nova espécie de intersubjetividade, que Langdon  Winner chama de “ciberlibertarismo”[xxiii] Isto se prende à natureza do ciberespaço como rede, como um intercâmbio não-hierárquico e caótico entre vários conjuntos de informações, valores, identidades e interesses,  que é sempre  parcial, temporal e local, nunca linear.  Aqui, a constituição do conhecimento e a relação com o conhecimento são menos severas, compulsórias, lineares, abstratas e inclementes e muito mais abertas, sensíveis, zelosas, instintivas, brincalhonas, ou  “femininas”. Por tal razão, por ser aberta à participação de todos não aninha pretensões universalistas; nem faz reivindicações sobre a eternidade de suas verdades ou sobre a validade objetiva ou eterna de  seus fundamentos, critérios, conclusões acordes e objetivos. Nesse sentido, é uma alternativa ao conceito masculino instrumental ou falocêntrico do conhecimento e à intersubjetividade hierárquica. Uma das manifestações do falocentrismo ocidental, conforme esta linha de argumentação, deve ser vista nas metanarrativas e em seu papel na formação da mente ocidental e na coexistência humana. Nesse contexto, um papel especial é reservado aos cânones escritos hegemônicos, currículos formais, e livros e sua operação no processo geral de educação condicionante autoritária. Isto se aplica especialmente a arena escolar[xxiv], onde o livro (ou a verdade), o professor e as hierarquias sociais e culturais hegemônicas são pressupostas, justificadas e reforçadas. Por contraste, no quadro do ciberespaço “o centro da cultura ocidental ... o texto fixo, autoritário e canônico simplesmente explode no éter”.[xxv]

No ciberfeminismo, concebe-se o ciberespaço como uma alternativa total ao papel masculino tradicional simbolizado pelo falo. Conforme Plant,

“O falo e o olho revezam-se em dar prioridade à luz, vista e vôo das obscuras questões  do feminino. O olho fálico tem funcionado para dotá-las com a ligação a tudo que, nesta ou naquela situação, tem sido definido como Deus, o bem, a forma ideal, a única ou a verdade transcendental.”[xxvi]

Para Plant, ao mesmo tempo em que o falo garante a identidade do homem e sua relação com a transcendência e a verdade   “também o aliena do maquinário abstrato de um mundo que ele julga possuir”[xxvii] Em contraste com o conhecimento e a comunicação falocêntrica, que é hierárquica, linear e violenta ao Outro ou ao irracional/falso/improdutivo, no computador e na comunicação mediada pelo computador, a ordem é feminina e conectiva, não hierárquica. A informação no ciberespaço não é centralizada, mas “inerente a todos os lugares”[xxviii] . O falo, o pensamento linear, a hierarquia, a transcendência e o domínio são substituídos pelo clitóris, que é concebido como  “linha direta para a matriz”.[xxix] Essa distopia baseia-se na feminização do mundo.[xxx] Funda-se no  buraco feminino   “que nem é algo nem é um nada”[xxxi]  e no qual a fertilidade da internet, da conectibilidade, do intuicionismo e da simulação abre novos horizontes à vida. Entende-se a vida, agora, em termos de  “uma aliança perversa entre as mulheres e as máquinas”. Perde-se a autorização transcendente da interpretação e com ela a ontologia que fundamenta a epistemologia ocidental. Como muito comum nos cultos tradicionais, as ciberfeministas tentam articular uma mitologia ciberfeminista na qual a tecnologia computacional desde seus inícios já vinculasse o telos  da superação da lógica interna masculina e de sua ordem hierárquica. Como mitologia pós-moderna, aqui não se trata da emancipação do sujeito humano, nem mesmo da  “mulher”, mas de máquinas e mulheres que se liberam juntas do mundo dominado pelo macho. Sadie Plant investe muito esforço para mostrar que os programadores importantes do computador foram mulheres cujo papel terminou esquecido. Usa linguagem mítica para elaborar uma metanarrativa alternativa em contraposição à masculina.  Começa com a criação, a vida nos Jardins do Éden, e a Queda, reconstrói o estabelecimento da história dominada pelo macho e termina com as ligações cósmicas; aqui, no ciberfeminismo, como antes da Queda, tudo se liga com tudo. Aqui não há lugar para o ser humano como manifestado na história masculina da dominação, sofrimento e busca da verdade.

O ciberfeminismo tenta demonstrar que o ciberespaço é feminino por essência. Nesse esforço, entra em conflito com o anti-essencialismo pós-moderno geral. É onde a essência e o telos  femininos e os masculinos são comparados histórica e conceitualmente para constituir uma explicação teleológica que começa com Adão e Eva e conclui que o ciberespaço é uma totalidade feminina, ou um aperfeiçoado Jardim do Éden. Seguindo a mitificação da fêmea, e na direção das mulheres pós-humanas no ciberpunk, a mitologia introduzida por Plant torna-se natural que as mulheres dêem a luz à  “primeira linguagem de programa  para uma máquina abstrata que ainda será construída”.  Sua reconstrução da invenção da máquina Turing anterior ao computador encontra apoio num parco trabalho histórico. Isto abrange a ressurreição (pós-edênica) da “Maçã”, do “Veneno” e do “hormônio estrógeno feminilizante ... que deu origem a um poderoso conjunto de idéias matemáticas, dentre as quais aquela que é chamada de máquina Turing”[xxxii] A constituição do ciberespaço é representado como a vitória final da essência feminina sobre a masculina com suas manifestações políticas e filosóficas.

Para Plant, o ciberespaço tem uma  “essência”  feminina e, por isso, é que constitui um espaço “natural” para as mulheres. Isto porque, ao contrário dos homens, elas sempre estavam vivendo inconscientemente e preparando-se para o momento histórico de construção do ciberespaço. Elas assim procederam  “sempre”  vivendo conectadas, no mesmo modelo da internet, em seus tradicionais locais marginalizados de diz-que-diz, em seu trabalho comunitário nos campos, nas cozinhas, no trabalho como telefonistas ou secretárias e em muitos outros locais e jurisdições.[xxxiii] Plant defende que a nova arena é única no sentido de que a postura do conhecimento produtivo, das necessidades de desenvolvimento tecnológico e das forças que estão dissolvendo o mundo tradicional sob domínio do macho acabam forçando irresistivelmente o conexionismo feminino. No quadro do que vemos como sua reconstrução teleológica sob o contexto computadorizado/femininizado,

"a abordagem da ordem-que-emerge-das conexões-múltiplas define a inteligência não mais como monopolizada, imposta, dada por uma força eterna, transcendente e superior, mas, em vez disso, desenvolvendo-se como processo emergente, engendrando-se a si mesma de cima para baixo”[xxxiv]

Na reconstrução de Plant, o desenvolvimento histórico da engenharia computacional dá origem a uma totalidade pós-humana e, de certo modo, pós-feminina ou “realmente feminina” que entra em conflito com a lógica interna do falos, que garante a identidade do homem e sua relação com a transcendência e a verdade - e que o separa do maquinário abstrato como os computadores. Na cultura falocêntrica, os homens identificavam-se tradicionalmente com a verdade ou a busca da verdade e da transcendência, enquanto as mulheres se identificavam com “com simulação, imitação, mentiras e intrigas”  - e isto é exatamente o que torna o ciberespaço “feminino”.[xxxv] Esta representação utópica feminista do ciberespaço como arena emancipada, como emancipação não violenta da busca por originalidade, verdade e transcendência no ciberespaço”[xxxvi] tem que ser examinada.

 

Examinando o ciberfeminismo “soft” e sua utopia

Contra a apresentação utópica do ciberespaço como Eldorado das mulheres, deveríamos colocar os estudos de Susan Herring, Kathleen Michel e outras , que se opõem à representação da internet como um ambiente feminista onde o conhecimento não-falocêntrico tem a última palavra.[xxxvii] Há muita evidência a demonstrar que os homens dominam a internet e que esta é, na verdade, um ambiente completamente violento mesmo em seus aspectos mais femininos. Como mostra Leslie Regan Shade, em muitos aspectos mesmo na academia, “o ciberespaço não é um espaço isento do gênero”[xxxviii] A contingência da informação recolhida pelo sistema de  “link” e  a pluralidade de janelas sem centro, hierarquia, potencial de transcendência ou reivindicações de validade apriorística não são seguidos por uma tendência  “feminina”  não-violenta ou por uma nova intersubjetividade não-agressiva. Os potenciais de contra-educação por igualdade e respeito pelo Outro com certeza não se realizam em direção às mulheres e entre mulheres nessa arena.  É desnecessário dizer que se ignora aqui por completo a questão do ser humano e da internalização da opressão por mulheres oprimidas, realçadas nos contatos com a indústria do mal da normalidade do mundo dos machos e em sua resistência a ele.  Defenderemos que as razões para a importância da desumanização ou da modelagem eficiente do projeto feminista pós-moderno de emancipação nos quadros do ciberespaço já se encontram na lógica interna do sistema.

Numa segunda etapa, enfrentaremos o otimismo das ciberfeministas, que apresentam a internet como uma terra onde o pós-modernismo  “soft” se realiza numa intersubjetividade realmente  “femininizada”. Nosso pressuposto (a ser desenvolvido à frente) é que os habitantes do ciberespaço não evitam nem suplantam as manipulações sociais que constituem, guiam, desenvolvem e destróem sua autonomia potencial como sujeitos humanos em jogos de poder “normais”. Na verdade, internalizam a opressão, identificam-se com ela e a realizam na medida que esquecem sua alteridade, sua unicidade potencial bem como sua responsabilidade quanto à alteridade do Outro e o imperativo de diálogo que são. A internet não é uma arena onde se suplanta a alienação. Em vez disso, esquece-se a alienação. É parcela do abandono da vida humana como missão, como responsabilidade e como desafio. Este abandono, por sua vez, é parcela do processo avançado de desumanização, que ironicamente é autoconsciente  - mas, sob o ponto de vista do sistema, como seu agente (e vítima). Eis porque para as ciberfeministas, bem como para muitas outras ciberotimistas, o processo bem sucedido da desumanização e a tirania de um progresso tecnológico aparentemente sem objetivos acabam concebidos como algo a ser celebrado. Nossa pressuposição é que nada há de novo no processo de modelação como tal.  Todos os processos educativos modeladores miram contra os potenciais humanos do sujeito.  O ciberespaço é único por sua sofisticação e efetividade. Em contraste com a pretensão dos ciberotimistas, achamos que o ciberespaço não é uma esfera política e economicamente neutra: é, pelo contrário, uma das manifestações mais sofisticadas do atual capitalismo global e de sua indústria cultural. Como mostra Paul Standish[xxxix], reflete novo estágio do distanciamento da techne de seu significado original e do destino humano, que, segundo Heidegger, são inseparáveis. Em oposição aos otimistas do cibernético, defendemos que a suposta “anarquia” e liberdade de intercâmbio de conhecimentos e representações de  “vozes”  silenciadas são muito problemáticos e isto pelos dois sentidos que se seguem: 

(a) Ao mesmo tempo em que permitem que as  “vozes” silenciadas façam ouvir, abrem-se a manipulações e distorções ideológicas, técnicas, econômicas, psicológicas e sofisticadas. Intrusos não identificados ou quaisquer participantes podem entrar no diálogo, distorcer mensagens e fingir que estão comprometidos com um diálogo aberto ao mesmo tempo em que trabalham para subverter ou destruir a conferência, deturpando a livre participação em grupos de discussão. É altamente problemática o conceito do ciberespaço como locus de fala ideal ou como manifestação de diálogo livre e multicultural.  Isto acontece porque no ciberespaço não temos o que Levinas chama de   “a face”[xl]  do Outro, porque se desconsidera a alteridade, esquivando-se da responsabilidade diante de um  Eu ético em diálogo transcendente realizado como contra-educação. No ciberespaço como arena com fluidez de informação, identidades, paixões e modas não há lugar tanto pela responsabilidade e amor quanto também para a necessária distância crítica. A ausência da distância crítica não permite a separação, a dialética e o desafio da auto-evidência ou do consenso hegemônico. É também problemático por causa do conceito pós-moderno de indeterminação num constante ultrapassar de fronteiras e pela ausência de normas e padrões de confirmação reconhecidos. A contingência e a fluidez são aqui problemáticas não apenas em relação ao contexto, mas também em relação à identidade, à consciência ou ao  “self” do sujeito. Aqui há lugar para resistência e mudança, mas não para a liberdade, a reflexão e a luta pra mudança não contingente, nem para eros  e para o diálogo.

b) O conceito de emancipação feminina no ciberespaço representa um novo estágio do desenvolvimento da tecnologia e da globalização do capitalismo, no que podemos chamar de capitalismo virtual. Longe de ser uma arena neutra onde a autoridade, as hierarquias e as manipulações se dissolvem, a internet, como manifestação do capitalismo virtual, é um sistema mundial para produzir lucros, em luta poderosa a serviço de um desejo pelo nada. Não há, aqui, lugar para reflexão, transcendência e diálogo, nem para os domínios anárquicos, descontrolados que os ciberotimistas pós-modernos  “soft” , leais às forças das utopias positivas, divulgam, tais como o sujeito liberado, o diálogo não-violento e a intersubjetividade solidária.

Somos de opinião que são ilusórias as proclamadas novas possibilidades de livre escolha para os indivíduos, sua autoconstituição e a intersubjetividade sem controles. Estas ilusões servem para a atual educação modeladora. Elas e outras, como identidades fluidas de sujeitos fragmentados, revelam-se como partes importantes de novo estágio à formação do sujeito. Este é um processo de produção do Eu pós-moderno que se destaca de sua alteridade, e, em última instância, não representa sua autonomia potencial, sua autoconstituição, ou responsabilidade para com o Outro e para si mesmo,  e para a transcendência e auto-constituição potencialmente dialógicas.[xli] Este  “sujeito” é o constructo de um si próprio sujeitado: não é um Eu ético que manifeste o potencial dialógico humano.

 

A formação do sujeito, a educação modeladora e o Eu ético no ciberespaço:

A educação é um movimento positivo de formar o sujeito como um “sujeito” que agirá como objeto de modelagem, construção, educação e destruição. Como tal, supõe-se que ele ou ela seja um agente do sistema, garantindo o domínio da auto-evidência que ele ou ela reflete e perpetua e a ordem social da qual ele ou ela é um constructo. A educação sempre se caracteriza pelo compromisso de educar à luz de uma utopia positiva ou de uma distopia relevante. Também a contra-educação é uma utopia, no entanto está comprometida com uma utopia negativa que desafia o êxito da educação modeladora e o presente estado das coisas.  A educação, em todas as suas versões, como movimento para reduzir o sujeito num “sujeito” tem o compromisso de assegurar que os seres humanos  estarão incapacitados de ativar a reflexão.[xlii] A reflexão não deve ser reduzida a uma atividade cognitiva. Primariamente, é uma postura ética e precede a razão, a moralidade e a política. A reflexão manifesta a dimensão humana no sujeito como alguém que recusa tornar-se uma coisa. Na reflexão, ele ou ela manifesta responsabilidade pela transcendência. Transcendência do dado, do auto-evidente, do Eu modelado que foi construído e manipulado pelo sistema. A responsabilidade pela reflexão e pela transcendência não pode ser separado da responsabilidade pelo totalmente Outro. Aqui o Outro não é um objeto de manipulação, controle, educação ou destruição, mas uma requisito prévio  para um sujeito como Eu ético, para a batalha de recusar-se a ser um “sujeito” que funciona como objeto de  “seu”  sistema. Ao modelar o sujeito, a educação faz seu potencial de autonomia ficar esquecido, separado ou “produtivo”.  Faz virar o imperativo da reflexão e a responsabilidade pelo Outro interno e externo em seu oposto, numa reflexibilidade, num compromisso com o auto-evidente, o seguro e o prazeroso. A educação modeladora transforma o sujeito numa ficção, numa utopia positiva ou uma distopia ingênuas e/ou perigosas. De sua responsabilidade absoluta pelo totalmente Outro, o Eu ético confronta-se com a falta de significação do mundo a que foi lançado  e com o domínio da auto-evidência em que está sendo modelado.  O Eu ético confronta-se com o abismo entre o ético e o razoável, o privado e o público e não tenta escapar de uma vida perigosa. Para o Eu ético, a mera vida não é o objetivo da vida. O Eu ético é responsável pela alteridade do Outro, pelo ainda-não, pelo potencial. O Eu ético nada tem a ver com uma reprodução utópica ou utópico-positiva da realidade dada. A utopia negativa de superar toda auto-evidência e de enfrentar a falta de significação (na forma de contingência, contextualismo ou do fosso entre a ética e a razão) realiza-se na vida dialógica em que a alteridade do Outro - e não sua equivalência - é pré-requisito para a reflexão e a transcendência. O Eu ético luta para ser um sujeito - sempre num movimento dialógico - com o Outro.  Entretanto, temos que lembrar que o sujeito não é dado, a autonomia é apenas um potencial e o Outro quando não destruído ou “educado” contem sua alteridade, alienação e perigo, e somente assim o amor é possível. Diálogo, reflexão e transcendência não são também dados; não se realizam como parte do mundo dado, como as ciberfeministas “soft” querem que acreditemos. No entanto, trata-se de uma utopia concreta, pela qual se pode lutar para realizar, mesmo que apenas em cenários microscópicos. Na contra-educação, a reflexão e a transcendência podem se realizar por um instante, e depois desaparecerem novamente, dando lugar para a educação modeladora e para a ordem hegemônica das coisas - mas também para a indeterminação, para o conflito, para a dialética, para a abertura à diversidade. Sua negatividade, sua ausência é o que torna a utopia uma possibilidade aberta. Torna possível que o “sujeito”  lute  para se tornar um sujeito e possibilita a prontidão a ter o auxílio do totalmente Outro.  Ao desafiar a educação modeladora, a contra-educação não pode levar a melhor; isto acontece porque é uma utopia negativa. Na hora em que leve a melhor, a contra-educação será parte e parcela da educação modeladora. Assim ela luta para realizar a utopia do sujeito resistindo à realidade presente em todos os seus disfarces: como “fatos”, “desconstrução” e fragmentação. Nesse sentido, a contra-educação não pode participar do ciberotimismo em qualquer das versões deste. O que os otimistas da cibernética celebram, mesmo na versão pós-moderna  “soft”, é o desaparecimento da utopia, a demolição da reflexão e o abandono da transcendência como parte da superação da metafísica tradicional. Os otimistas da cibernética  se mostram  anunciando a emancipação da arrogância do liberacionismo e do que nós chamamos de educação modeladora. Achamos, no entanto, que aqui diante de nós não se apresenta o fim da educação modeladora, mas sua sofisticação. Esses otimistas louvam o ciberespaço por suplantar a educação centralizadora, a censura, os interesses hegemônicos e as pretensões metafísicas pela verdade, validade universal e transcendentalismo em todas as suas formas. Apenas sob tais condições as mulheres são livres, segundo o ciberfeminismo “soft”. Pensamos, no entanto, que enquanto não houver lugar para o Eu ético, para a reflexão e para a transcendência no ciberespaço - na medida em que nos tornamos parte  do sistema ou nos tornamos o próprio sistema (“nós somos a Net”) - estaremos mais efetivamente escravizados e não liberados, como acontece com os prisioneiros na caverna platônica. O indivíduo louvado pelos otimistas da cibernética é um “sujeito” e não um sujeito - uma manifestação da força do sistema em mistificar a realidade, em produzir e controlar o self e suas lutas, aparelhos conceituais, interesses e competência. O combate para se tornar um sujeito e efetivar a responsabilidade do Eu ético num diálogo em que sejam possíveis a reflexão e transcendência representa a resistência heróica a Tanatos. O ciberespaço como quadro para os mitos mais sofisticados fertiliza-se pelo busca niilista pelo nada e representa o triunfo de Tanatos; a busca por abandonar a responsabilidade diante da vida superior à mera vida, lançando-se nas infinitas tentações do capitalismo virtual.

Nesse processo, são essenciais a privatização do self  modelado como “sujeito”, sua reificação e sua busca por uma troca simbólica desorientada e pelas ilusões que produzem prazer. Nesse sentido, a reconhecida contingência da Web, a troca caótica e “dialógica” de identidades e subjetividades é enganadora. Isto acontece porque sua produtividade é, na realidade, determinada por sua efetividade em camuflar o processo pelo qual esta falsa subjetividade, sua vontade e suas buscas orientadas a Tanatos são produzidas como uma agência da expansão capitalista e dos processos modeladores que a Web não  tem o desejo ou a competência de revelar e a eles resistir. Uma das melhores manifestações da presença da organização capitalista das opções e da realização da “livre vontade” reificada e controlada é a maneira como os “links” operam na internet.

Como mostra Nicholas Burbules, o elemento-chave na estrutura hipertextual do ciberespaço é o link.[xliii] Os otimistas do cibernético vêem os links  como questões de espontaneidade, preferência e conexões criativas livres de controles. Burbules, no entanto, adverte que:

“o ato de um link não se restringe a associar dois dados ... os links mudam a maneira pela qual o material vai ser lido e compreendido: parcialmente em virtude da mera justaposição de dois textos relacionados ... e em parte pela conexão implicada que um link exprime ... isto faz com que o leitor faça conexões dentro e através de textos, às vezes de maneiras que são estruturadas pelo ‘designer’/autor. ...Em textos on-line, os links definem um conjunto fixo de relações dadas ao leitor, entre as quais o leitor deve escolher, mas além das quais a maioria dos leitores nunca irão. Além disso, os links não apenas expressam relações sêmicas mas também, significativamente, estabelecem caminhos da movimentação possível dentro do espaço; sugerem relações, mas também controlar o acesso à informação”.[xliv]

Como corretamente alegam Suzanne Rice e Burbules, o uso dos links  e a reflexão sobre os interesses estratégicos e limitações pessoais de seus designers  no final das contas apóiam-se em valores, virtudes comunicativas, paciência e sensibilidade ao contexto.[xlv] Estes, no entanto, tornam-se possíveis pela educação crítica que o ciberfeminismo está resolvido a liquidar. Mas gostaríamos de avançar mais que Burbules.  Desconsiderar o apelo do totalmente Outro, ver inacessível  a busca para ser sujeito autônomo, ser incapaz de realizar a reflexão e a transcendência - em outras palavras, a ausência do momento messiânico no ciberespaço - tudo isso assegurar a reprodução do  “sujeito” como um objeto para o sistema de manipulações que são, ao mesmo tempo, contingentes e racionais, necessárias e sem sentido. As condições pós-modernas constituem a retórica feminista de educação emancipadora como um elemento produtivo dentro do ciberespaço, como um eficiente e violento sistema produtivo de formação do “sujeito” ou uma decepcionante e anti-humana máquina de prazer. Não permite responsabilidade pelo sofrimento do Outro, com desafios aos mistérios do auto-evidente e do trivial ou um combate que realize um compromisso moral na transformação da realidade. Nesse sentido, o ciberespaço não apenas está longe de ser o perdido Jardim do Éden pós-alienado feminista, é de fato o desafio mais avançado ao projeto emancipador e à emancipação das mulheres. A tensão entre as forças educativas modeladoras e a contra-educação é mais aguda no ciberfeminismo  “hard”, onde se supõe o sujeito totalmente ausente, algo obsoleto do mundo moderno  que foi com êxito retirado do caos da completa contingência, hibridez, fluidez e falta de significado.

 

Dirigindo-se ao ciberfeminismo e a sua distopia

As feministas pós-modernas  “hard” concebem o ciberespaço com um novo ambiente dispótico. Nesse quadro,  Elizabeth Lane Lawley defende que as definições de  “mulher”  e   “homem”  estão mudando dentro do ciberespaço. Argumenta que “não podemos fixar um centro particular do qual possam ser vistas as experiências das mulheres com os computadores e com os sistemas de comunicação”[xlvi] Em explícita oposição aos críticos da racionalidade instrumental e a sua imanência nas tecnologias de informação vigentes, ela vê no ciberespaço uma promessa educativa para a liberação das mulheres que as habilitará a superar as dicotomias sujeito-objeto, homem-mulher, natureza-cultura dentro das quais elas têm sido tradicionalmente oprimidas. É aqui que Lawley, nos passos de Donna Haraway, acha o ideal cyborg tão importante.  Lawley descreve um mundo pós-gênero como o ambiente onde a esperança da liberação da mulher pode finalmente tornar-se real com sua integral eliminação.

O essencialismo do pós-modernismo  “hard”  torna-se um elemento “emancipador” com a derrota das diferenças de gênero. [xlvii] A possibilidade de ilimitada re-inscrição e troca do corpo no ciberespaço fascina Lawley. Na verdade, é uma visão de superação da corporalidade, mas não da transformação de homens e mulheres em coisas. É uma visão de eliminar o corpo como diferente da mente, consciência ou mito. Ela é fascinada pela possibilidade de entrar num ambiente onde seja impossível dividir a aparência de sua construção, o sujeito de suas criações, o aparelho de representação da “realidade”; ela objetiva suplantar as categorias históricas de “mulheres”, “outro” ou  “objeto”.[xlviii] A hibridez e fluidez da identidade das mulheres promete, segundo esta visão,  a emancipação das mulheres. Este é um mundo onde  “nós podemos ser forçadas a lidar com categorias despedaçadas e identidades cambiantes.”[xlix]

Lawley não se incomoda que o cyborg  não apenas transforma a “mulher”  e o  “homem”, mas também a verdadeira relevância do sujeito. A celebração da contingência, hibridez, mudança constante e emancipação dos desafios da realidade é vista aqui como emancipação das mulheres de uma maneira  toda  especial: eliminando-se a mulher ou o feminino. Aqui, mulheres e computadores rebelam-se contra o mundo falocêntrico e criam um espaço holístico novo onde o cyborg se sente em casa, onde não há lugar para o sujeito e para o momento messiânico, onde a utopia da criação dialógica e da auto-superação são abandonadas. A fluidez e a contingência de inúmeras identidades, paixões e mitos, acompanhados pelo fim da autenticidade garantem, segundo Plant, o fim da dominação do macho e até da própria dominação como tal. [l] Isto não impede que algumas das demais ciberfeministas “hard” , como Verena Kuni, falem do mundo futuro como uma arena femininizada.[li] No entanto, ao dissolver a categoria do sujeito e de sua Alteridade, argumentamos, ficará mais difícil para homens e mulheres desafiar os mecanismos de criação, representação e distribuição da educação modeladora. Diante do exílio do espírito, os jargões da emancipação e radicalismo são ainda mantidos vivos, mas de uma maneira cínica.  As ciberfeministas pós-modernas  “hard” lançam mão da linguagem da emancipação e dissenso ao mesmo tempo em que abandonam os ideais do sujeito, da reflexão dialógica, da transcendência e da responsabilidade. Estes ideais e estas buscas são aqui abandonadas para facilitar que sejam mais facilmente engolidas pelo sistema e ajustadas à internet, à Web, à realidade virtual, aos Muds ou a outras manifestações do sistema. Esta posição fica ainda mais clara no caso de Donna Haraway.

O ponto de partida de Haraway é a cultura do macho tradicional no Ocidente. Segundo ela, trata-se de uma cultura racista, que inclui o progresso e a apropriação da natureza como recurso para a produção da cultura.[lii] Vê, nas condições pós-modernas[liii] novos potenciais emancipadores para as mulheres: a evolução social e a tecnológica criaram um contexto onde “as dicotomias entre corpo e mente, animal e humano, organismo e máquina, público e privado, natureza e cultura, homens e mulheres, primitivos e civilizados são postos ideologicamente em questão”[liv] Haraway defende que, nas novas condições, o mundo se torna um problema de codificação e resistência controle instrumental. Note-se que, em contraste com as pós-modernistas  “soft”, Haraway não se refere a uma emancipação feminina à luz da nova constelação como uma arena onde o mundo patriarcal vá se tornando femininizado e a alienação vá se reduzindo enquanto estejam se realizando mais igualdade, respeito pelo Outro e solidariedade. Ela enxerga a condição pós-moderna como uma arena onde a questão do sujeito, de sua vida, e de sua possível emancipação está sendo radicalmente transformada e o ideal iluminista do sujeito suplantado pelo cyborg pós-moderno.

Como uma das manifestações da condição pós-moderna, o cyborg “é um organismo cibernético, um híbrido de máquina e organismo, uma criatura de realidade social e ao mesmo tempo uma criatura de ficção”[lv] Haraway não está à procura de mais igualdade entre homens e mulheres, entre culturas e classes; não está em busca de uma solução aos problemas tradicionais da filosofia e da sociedade. Em vez disso, ela abre uma alternativa completa, além do relativismo, temporalidade e parcialidade, como sugerido pelas várias tendências educativas no feminismo pós-moderno  “soft”. O pós-modernismo  “soft” abandonou a busca de uma harmonia perfeita. Suas alternativas educacionais são otimistas quanto aos prospectos de superação de relações assimétricas, desigualdades e opressão nas condições pós-modernas, em especial no ciberespaço. Haraway vai em outra direção, onde não há busca de diálogo livre e de relações mais simétricas entre as diferentes identidades, interesses, culturas, raças, sexos e classes.

Para Haraway, o incomensurável das diferenças e a concepção radical da contingência tornam possível a formulação de uma nova totalidade. Nesta, codificar e decodificar símbolos correm na mesma faixa da criação e recriação do cyborg como algo que se supõe ultrapassar as concepções tradicionais do Ocidente a respeito do sujeito humano. Em nossa opinião, o oposto ao objeto é alguém que lute contra a pressão por reduzi-lo a algo, que tenta ser alguém. Para Haraway, como para Plant e para outras ciberfeministas  “hard”, considerando que é uma criatura num mundo pós-engendrado[lvi], o cyborg supera os problemas filosóficos, sociais e psicológicos ligados ao mundo dominado pelo macho, e , assim, é uma manifestação do telos  da cultura ocidental.

Haraway introduz o mundo do cyborg como um Jardim do Éden melhorado,[lvii] no qual a totalidade não se constitui pela homogeneidade, eternidade, estabilidade e verdades absolutas realizadas de uma maneira perfeita.  O cyborg vive enquanto “comprometido com a parcialidade, ironia, intimidade e perversidade. É opositor, utópico e completamente não-inocente.”[lviii]  Nele, “a diferença entre o corpo humano e as máquinas por um lado e a natureza pelo outro é uma questão do passado.”[lix]  Haraway apresenta uma utopia na qual o mundo como arena dialética de identidades antagônicas e binárias, interesses e forças humanas é superado. Ela desfila uma totalidade de codificações e decodificações  sem fim , sem fundamentos, sem objetivos, sem sentidos. O mundo e o self  entrecasam-se e deixa de existir espaço para o Eu ético, que luta para realizar sua autonomia potencial pela reflexão crítica e pela transcendência dialógica, que reformula o self e o mundo. Mistifica não apenas o self  e o mundo, mas até a utopia e a torna parte do corrente domínio da auto-evidência. Apresenta uma totalidade  “não de uma linguagem comum, mas de uma poderosa e infiel heteroglossia”, que curiosamente ela ainda define como “feminista”. Educa-se para lançar-se num mundo em que Haraway pode preferir ser cyborg a ser  deusa.[lx] É um mundo que recuperou sua totalidade, como o do cyborg que vive num mundo destituído de espírito, sem qualquer  Outro alheio, um objeto ou um não-eu; um mundo que tem que ser decifrado, transcendido e superado.

O cyborg pós-moderno que é engolido pela tecnologia eletrônica não é o sujeito moderno alienado e sofredor, que se defronta com o dilema de destruir o Outro ou ser por ele destruído, de dominar ou ser dominado. Nas palavras de Haraway,  “não nasceu num jardim” e, portanto, não está comprometido a voltar ao Jardim do Éden pela redenção, que é determinada por uma verdade única, absoluta, sagrada; nem está comprometido com uma revolução ou em realizar o projeto secular emancipador do Iluminismo (ou outro),  realização de uma utopia positiva. Deste modo, o ser humano como um algo, um cyborg alivia-se das obrigações do tipo de educação que se vinculava à verdade e aos conceitos binários, tais como maldoso-piedoso, verdadeiro-falso, belo-feio, opressor-emancipador. “A máquina não é um algo a ser animado, adorado e dominado. A máquina somos nós, nossos processos, um aspecto de nossa corporalidade”[lxi]. Neste projeto, a educação integralmente se mistifica e se oculta. Torna-se parte e parcela do auto-evidente e da presente ordem das coisas. Na medida que é ainda identificável, somente pode pretender melhorar a produtividade ou os prazeres do cyborg, eliminando todas manifestações que sobrevivam no mundo moderno: diferenças entre homens e mulheres (e a opressão que tradicionalmente se liga a eles), cultura e natureza, humanos e máquinas, bem e mal, verdade e mentira, realidade e fantasia ? ? Entre as parcialidades, diferenças e temporalidades que nada têm em comum, por um lado, e a busca do nada que os determina, por outro lado, Haraway se põe a construir um novo Jardim do Éden, uma nova totalidade onde o auto-evidente e a presente ordem estarão a salvo de qualquer ameaça por algo ou por alguém.

Eis uma versão melhorada da situação humana no Jardim do Éden, onde Adão e Eva já se colocavam potencialmente em conflito com o imperativo divino ou com a tentação da serpente. Tinham já  uma opção, tinham a possibilidade de livre-escolha, mesmo antes de comerem a árvore do conhecimento do bem e do mal. Era uma totalidade frágil e continha as sementes de sua destruição. Os problemas educativos de conseguir o conhecimento do bem, de distribuir o conhecimento verdadeiro e de viver nessas condições são apenas uma conseqüência do imperfeito Jardim do Éden.

A condição pós-moderna, como mostrada por Plant, Haraway e outras feministas  “hard”, pode oferecer uma totalidade perfeita, na qual o esforço sísifista da educação e sua violência chegaram a um término. O que oferecem é uma arena em que não há lugar para a vida como luta e responsabilidade humana. O mundo do cyborg ou a realização do conexionismo, onde tudo se amalgama com tudo e tudo se conecta a tudo numa fluidez sem fim, sem fronteiras e sem sentido, não é uma alternativa à lógica do controle que identificam com o falocentrismo ocidental. Nessa versão do conexionismo, na ausência de um Eu ético ou da utopia do sujeito, não há lugar para a solidariedade e amor ou pela luta contra o falso e o injusto. Em outras palavras, não há lugar para lutar contra a educação modeladora. Isto se dá porque foi de início internalizado e depois fragmentado em infinitas  “diferenças” , onde nenhuma diferença, de fato, faz diferença, onde não há lugar para o Outro e sua alteridade. Este tipo de conexionismo pode ser realizar no futuro - e o dos computadores biológicos podem contribuir para desenvolver essa nova totalidade. Vemos, no entanto, como uma busca do nada, uma pulsão de Tanatos que usa um eros domesticado para evadir-se da vida de problemas e de cargas, de aberturas e de um apelo ao totalmente Outro. A vida como um otimismo despreocupado ou   “ironia” aqui ocupa o lugar de uma missão perigosa, que se revela como preguiça. É a celebrada eliminação do self , engolido pelo sistema e por suas máquinas do prazer. Aqui desaparecem o lugar, a busca, e os potenciais para um utopismo negativo e para a contra-educação. Esta atitude se faz também presente nos muds  e nas tecnologias da realidade virtual.

Em sua forma ideal, a tecnologia da realidade virtual promete uma  técnica que permitirá a criação em tela de uma cena totalmente manipulada por um  “sujeito”  que perceberá a realidade virtual como realidade perfeita. Poderá ter tudo que imagina na tela, e, como prova, sentirá como se a realidade virtual seja perfeitamente “real” e reagirá nestes termos, no plano físico e no emocional. Na criação da dor virtual e do prazer virtual, a totalidade, a infinitude e a eternidade estão ao alcance. No caso do cyborg aperfeiçoado, há uma possibilidade de se  “desligar”? Este estágio do pós-modernismo  “hard”  realizado levanta árduas questões: quem é o sujeito e o que e quem é o objeto? Qual é o sentido de “livre decisão” e de “criação, no sentido de quem ou o que manipula o que, quem ou qual é o senhor aqui ? Aqui nos confrontamos com uma máquina de prazer  (ou do inferno?) na qual o desafio da educação e o da educação emancipadora feminista perde o sentido e o propósito. A problemática de sofrimento, amor, mistério e esperança pela transcendência se torna irrelevante, perde o sentido, porque nada continua provido ou desprovido de significado, nada é digno ou indigno, verdadeiro ou falso, real ou irreal. Nem mesmo o sujeito e sua relação com os Outros, com os símbolos ou os objetos.

Segundo Sherry Turkle,

 “os muds o colocam nos espaços virtuais em que você pode navegar, conservar e construir... os muds são um novo tipo de jogo de salão e uma nova forma de comunidade. Em acréscimo, os muds com base em textos são uma nova forma de literatura escrita em equipe. Os jogadores de mud são autores de mud, são criadores e também consumidores de conteúdo midiático...Como os jogadores participam, tornam-se autores não apenas do texto mas também de si mesmos, construindo novos selfs por interação social... Nos muds, o corpo da pessoa assume a própria descrição textual dela , portanto, a obesa pode aparecer esbelta, a bela pode aparecer simples, a “nerdy” pode aparecer sofisticada .... Os muds tornam possível a criação de uma identidade tão fluida quanto múltipla, o que explode os limites da noção”. [lxii]

Turkle mostra-se muito otimista quanto ao potencial emancipador dos muds pois trata-se de uma arena onde a construção e desconstrução da identidade acontece como nova forma de vida; vida como jogo em que alguém cria ou recria identidades e em que as fronteiras entre “vida real”  e “jogo” são transcendidas, ou, pelo menos, reformuladas para homens e mulheres. Turkle enfatiza que “para alguns, este jogo tem se tornado tão real quanto convencionalmente consideramos as vidas deles, embora para eles isto tenha deixado de ser uma distinção válida”[lxiii]

O ciberespaço como manifestação do mundo pós-moderno  “hard” é um mundo onde não se faz possível a responsabilidade para com o Outro ou para si mesmo. Finalmente, deixa de haver lugar para a educação, pois deixa de existir sujeito humano e desaparece o mundo de necessidades. Pensamos que, dentro do ciberespaço e de suas possibilidades e limitações pós-modernas “hard”, não há lugar para a contra-educação. A educação não é ameaçada por qualquer rival. Constitui-se como uma totalidade, que traz à mente o Jardim do Éden ou a visão da futura sociedade por Marcuse, aquela em que os conflitos entre natureza e cultura, sujeito e objeto, princípio do prazer e princípio da realidade, e até mesmo o princípio da individuação[lxiv] são suplantados.

 

A contra-educação diante do feminismo

As versões  “hard”  e  “soft” do ciberfeminismo pós-moderno que têm sido reconstruídas aqui unem-se ao sustentarem e refletirem a atual condição pós-moderna e sua subcultura capitalista. Bom trabalho fez Paul Standish ao mostrar as relações entre forças econômicas hegemônicas, desigualdade sociais e o florescimento do ciberespaço nas escolas e na área educacional em geral.[lxv] Standish, no entanto, apóia (não sem algumas dúvidas) o anti-instrumentalismo do ciberfeminismo e pensa que  “o ciberfeminismo explora a possibilidade de redescoberta de algo daquelas maneiras de pensar que podem contrabalançar ou minar uma racionalidade mais calculista.”[lxvi]

Standish segue a crítica da racionalidade instrumental do Ocidente feita por Heidegger e vê no computador uma manifestação tecnológica da racionalidade instrumental. Aceita que os computadores sejam mais eficientes administrar, permutar e tornar disponíveis grandes quantidades de informação e que a sociedade ocidental de hoje não pode passar sem elas. Para Standish, “o problema é que a facilidade com que podemos hoje acessar e passar estas informações substitui outras formas de conhecer, compreender e estar no mundo.”[lxvii] No entanto, ao se referir a avanços recentes no ciberespaço, onde estão sendo desenvolvidas as características do computador orientadas ao macho, junto com outros potenciais multimídias, numa tecnologia  “masculina”, Standish se mostra menos satisfeito com a postura de Heidegger , colocando-se, assim, ao lado do otimismo do ciberfeminismo. Segundo Standish, “ao identificar o fácil e o inofensivo sedutores do pensamento calculista masculino, Heidegger pode ter deixado de prever integralmente a maneira como isto transmuta-se na experiência física da nova tecnologia. Pode também ter deixado de perceber a extensão em que a tecnologia se transforma quando as estruturas organizadoras hierárquicas são substituídas por formações acêntricas e modais da Web.”[lxviii]

Aceitamos os aspectos centrais da crítica de Standish  e das feministas quanto ao instrumentalismo do atual desenvolvimento tecnológico, mas não compartilhamos a compreensão que têm das características  “femininas” do ciberespaço; tampouco podemos  participar de seu otimismo e heideggerianismo.

Standish não faz justiça a Heidegger porque, quando  se refere à Web, Standish não se refere à  questão da lógica interna da tecnologia do ciberespaço ou  à questão do sujeito em total descompromisso, à Geworfenheit. Quando se refere ao caráter “feminino” da Web  esquece-se de submeter esta questão frente à questão do Dasein no sentido heideggeriano que ele preza. Para Heidegger “das Dasein ist Seiendes, dem es in seinem Sein um dieses Sein Selbst geht” ou seja, o sujeito é único no sentido de que o Dasein é , por estar vinculado à questão do ser. Contrariamente a Standish, pensamos que - segundo Heidegger, Adorno e Levinas  - deveremos desenvolver a crítica da racionalidade instrumental levantando o questão das possibilidades e limitações concretas da vida humana no ciberespaço. A contra-educação de hoje deveria enfatizar a diferença entre informação e conhecimento, diálogo e troca de informações, mudança de identidade e transcendência frente ao Outro como representação do infinito. A contra-educação deveria explorar as questões do ciberespaço e do fortalecimento do capitalismo, e porque suas perdas morais e suas manifestações de indústria cultural não estão sendo problematizadas pelas atuais filosofias da educação.

Quando o ciberfeminismo e seu otimismo forem problematizados nesses termos, haverá muito menos lugar para a utopia positiva e mais para resistência, reflexão e responsabilidade para com o Outro como ser humano, como moça ou moço, mulher ou homem, e não como um ciborg  ou uma manifestação do sistema em realidade virtual contingente, sem objetivos e sem cuidados ou em muds.

Frente a esta atual realidade, é de vital importância levantar a possibilidade da contra-educação. Dentro da contra-educação, reavalia-se, transforma-se e luta-se pela questão do sujeito, pela possibilidade de reflexão e pelo significado da luta por transcendência dialógica. Aqui, a autonomia (potencial) do sujeito é vital e se realiza sempre dentro de relações dialógicas com Outros, cuja alteridade é reconhecida como legítima e relevante à vida humana. A luta por tal diálogo potencial necessariamente envolve desafiar o domínio da auto-evidência e da ordem corrente, o que inclui o presente self, seus interesses, conhecimentos, consciência e paixões, como forçada pela modelagem sistemática do sujeito.

O presente objetivo da contra-educação deveria ser avançar a filosofia da educação crítica, ao mesmo tempo em que emprega sensibilidades, condições e conceitos  pós-modernos. Isto constitui parte de sua luta pela possibilidade de vida humana dentro do atual processo de desumanização sofisticada por processos de modelagem como os realizados no ciberespaço. Aí a vítima do sistema torna-se seu agente devotado por autodisciplina, ajustamento às regras do jogo, abandono da responsabilidade e compromisso pela vida do ainda-não e do totalmente Outro.

Ainda que o ciberespaço seja um sistema unidimensional, a contra-educação pode fazer muito uso da tensão entre o pré-moderno, o moderno e o pós-moderno  no ciberespaço. A opressão real das mulheres e o verdadeiro sofrimento fora do ciberespaço e de seus mecanismos de representação, bem como as novas possibilidades no ciberespaço, permitem a presença da esperança e a possibilidade real de refutar a força sugestiva de Tanatos e sua eficiência educativa. Mas um dos primeiros passos deveria ser uma crítica das várias versões otimistas do atual ciberfeminismo e aprontar-se para o apelo do Eros filosófica e da responsabilidade ética. Esperamos que este artigo possa, de alguma forma, contribuir  para tal esforço.


* Tradução de Newton Ramos-de-Oliveira, Ciências e Letras da Unesp/Araraquara.

* “Queer” indica  o homossexual, em especial o masculino e, muitas vezes, aquele que se manifesta claramente.  Conservou-se a palavra inglesa porque se trata de termo que está se mundializando.

* Software que permite navegação pela interinternet, como o Explorer, da Microsoft, e o Communicator ou o Navigator, da Netscape.

* Hacking – a atividade criminosa dos hackers , especialistas em invadir computadores alterando comandos básicos e/ou inserindo vírus.

[i] Mark Poster, “Cyberdemocracy: interinternet and the public sphere”, p. 11.            http://www.hinternet.uci.edu/mposter/writings/democ.html

[ii] Mark Poster, “Cyberdemocracy: interinternet and the public sphere”.             http://www.hinternet.uci.edu/mposter/writings/democ.html

[iii] Mark C. Taylor & Elsa Saarinen, Imagologies: Media Philosophy,  Nova Iorque, 1994, p. 4.

[iv] Ibid. p. 7.

[v] Ibid. (sem indicação da página)

[vi] Sadie Plant, Interview, p. 1.http://www.geekgirl.com.au/geekgirl/001stick/sadie.html

[vii] Sherry Turkle, Life on the Screen : Identity in the Age of the Interinternet, Nova Iorque e Londres 1993, p. 9.

Lynsay Kennedy, “Cyberspace women’s turf?”  http://livjm.ac.uk/~mccscubi/cyberspace2.html

[viii] Sadie Plant, “Vorshung durch Technik”. http://www.thing.de/blau/blau19/plant.htm, p. 1.

[ix] Janni Steffensen, “Slimy metaphors for technology: ‘the clitoris is a direct line in the matrix”’.    http://ensemble.va.com.au/array/steff_01.html,  p. 1.

[x] Sadie Plant, “On the matrix”, p. 182

[xi] Zeo Sofoulis,  “Slime in the matrix: post-phallic formations in women’s art in the new media”, in Jill Julius Matthews (ed.), Jane Gallop Seminar Papers, Canberra 1994

[xii] Kira Hall, “Cyberfeminism, in Susan C. Herring (ed.) , Computer Mediated Communication: Linguistics, Social and Cross-Cultural Perspectives, Amsterdan/Filadelfia 1996, p. 148.

[xiii] Faith Wilding, “Where is feminism in the cyberspace?”    http://www.studioxx.org/xwords/cyberfemme.html, p. 10

[xiv] George Landow, Hypertext: The Convergence of Contemporary Critical Theory and Technology, Baltimore & Londres 1992, p. 77.

[xv] Ibid,. p. 74.

[xvi] Mark Poster, “Cyberdemocracy: interinternet and the public sphere, p. 3, http://www.hinternet.ici.edu/poster/writings/democ.html

[xvii] Tuomas Nevanlinna, “The Critique of the author-figure”, http://www.designmedia.internet.nevanlinnadead2-kuva.html

[xviii] Rosi Braidotti, “Cyberfeminism with a difference”, . 12, http://www.let.ruu.nl/womens_studies/rosi/cyberfem.htm

Tuomas Nevanlinna, “The critique of the author-figure”, p. 1 http://www.designmedia.internet/nevanlinnadead2_kuva.html

[xix] Mark Dery, “Flame wars”, in Mark Dery (ed.) , “Flame Wars: The Discourse of Cyberculture, Duke University Press, 1994, p. 8.

[xx] Jyanni Steffensen, “Slimy metaphors for technology: ‘the clitoris is a direct line to the matrix’” http://ensemble.va.co.au/array/steff_01.html, p. 1.

[xxi] Ibid.

[xxii] Anne Balsamo, “Feminism for the incurably informed”, in Mark Dery (ed.) ,Flame Wars: The Discourse of Cyberculture, p. 127.

[xxiii] Langdon Winner, “Cyberlibertarian myths and the prospects for community”,http://www.rpi.edu/~winner/cyberlib2.html

[xxiv] Colin Lankshear, Michael Peters, and Michel Knobel, “Critical pedagogy and cyberspace”, in Henry Giroux, Colin Lankshear e outros,  Counternarratives: Cultural Studies and Critical Pedagogies in Postmodern Spaces, Nova Iorque 1996, p. 154.

[xxv]  Richard  A  Lanham,  the Electronic World: Democracy, Technology, and the arts,  Chicago & Londres, 1993, p. 31

[xxvi] Sadie Plant, “On the matrix: cyberfeminist simulations”, in Rob Shields, Cultures of  the Interinternet: Virtual Spaces, Real Histories, Living Bodies, Londres, 1996, p. 172.

[xxvii] Ibid.

[xxviii] Sherry Turkle, “Life on the Screen: Identity in the Age of the Interinternet, Londres 1996, p. 132.

[xxix] Jyanni Steffensen, “Slimy metaphors for technology: ‘the clitoris is a direct line to the matrix”, http://ensemble.va.com.au/array/steff_01.html

[xxx] Saide Plant, Geekgirl no. 1, an interview with Sadie Plant, http://www.geekgirl.com.au/geekgirl/001stick/sadie.html, p. 1.

[xxxi] Plant, “On the matrix”, p. 180

[xxxii]  Plant, “On the matrix”, p. 180.

[xxxiii] Sadie Plant, “Das Internetz ist weiblich”,  http://konrad.stem.de/leseprobe/1998/45/plant.html, p. 2.

[xxxiv] Sadie Plant  “The virtual complexity of culture”, in George Robertson (ed.), Future Natural Nature/Science/Culture, Londres/Nova Iorque 1996, p. 204.

[xxxv] Sadie Plant, “Das Internetz is weiblich”, p. 3.

[xxxvi]  Ibid. p. 4.

[xxxvii] Leslie Regan Shade, “Gender issues in computer internetworking”, p. 5.

[xxxviii] Ibid. p. 6.

[xxxix] Paul Standish, “Only connect: computer literacy from Heidegger to cyberfeminism”, p. 2.

[xl] Emmanuel Levinas, “is ontology fundamental?’in Basic Philosophical Writings, Indiana 1996, p. 8.

[xli] Ilan Gur-Ze’ev, “Counter-education in the era of the exile of the Spirit, in Philosophy, Politics and Education in Israel, Haifa 1999 (em hebraico).

[xlii] Ilan Gur-Ze’ev, Jan Masschelein, Nigel Blake, “Reflection”...........

[xliii] Nicholas Burbules, “Rhetorics of the web: hyperreading and critical literacy”, http://www.edu.uiuc.edu/facstaff/burbules/ncb/papers/rehteorics.html., p. 1.

[xliv] Nicholas Burbules, Ibid., p. 3..

[xlv] Suzanne Rice e Nicholas Burbules, “Communicative virtues and educational relations”   http://www.edu.uiuc.edu/pes/92_docs/rice_burbules.htm, p. 6.

[xlvi] Elizabeth Lane Lawley, “computers and the communication of gender”,  http://www.itcs.com/elawley/gender.html, p. 2.

[xlvii] Ibid., p. 5.

[xlviii] Ibid. p. 6.

[xlix] Ibid. . p. 8.

[l] Sadie Plant, Das Netz ist weiblich”, p. 4.

[li] Verena Kuni, “Future is female: some thoughts on the aesthetics and politics of cyberfeminism”,    http://www.kunst.uni-mainz.de/~kuni/abs-cfl.htm,  p. 1.

[lii] Donna Haraway, Simias, Cyborgs and Women: The Reinvention of Nature, Nova Iorque 1991, p. 150.

[liii] Ibid., p. 161.

[liv] Ibid., p. 163.

[lv] Ibid., p. 149.

[lvi] Ibid., p. 150.

[lvii] Ibid., p. 151.

[lviii] Ibid.

[lix] Ibid., p. 163.

[lx] Ibid., p. 181.

[lxi] Ibid., p. 180.

[lxii] Sherry Turkle, Life on the Screen: Identity in the Age of the Internet,  Nova Iorque e Londres 1995, p. 11-12.

[lxiii] Ibid. , p. 14.

[lxiv] Herbert Marcuse, “Culture and revolution”, Herbert Marcuse Archive 406.00 in Ilan Gur-Ze’ev, The Frankfurt School and the History of Pessimism, Jerusalém 1996, p. 111 (em hebraico).

[lxv] Paul Standish, “Only connect: computer literacy from Heidegger to cyberfeminism”, Educational Theory, ( no prelo)

[lxvi] Ibid.

[lxvii] Ibid.

[lxviii] Ibid.