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Conect@ - número 4 - fevereiro/2002 |
Novas Tecnologias na Educação Especial:
algumas considerações técnicas e pedagógicas
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Professor de Língua Portuguesa e Língua Inglesa |
Introdução
Novas Tecnologias
A última década do século XX assistiu ao surgimento e à expansão acelerada de diferentes Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC). Tais TIC se relacionam em grande parte àquilo que conhecemos genericamente como Internet, ou rede mundial de computadores. A rede, que durante muitos anos foi utilizada com fins acadêmicos, nas últimas décadas do século passado alcançou também a população leiga de todo o mundo.
A Internet é essencialmente uma enorme rede de computadores conectados. Seu aspecto realmente mais conhecido e popularizado é sua interface multimídia, a World Wide Web (WWW), Teia Mundial ou simplesmente Web. É pela Web que obtemos acesso a imagens, sons, vídeos e programas de computador.
Tecnologias da Informação (TI) (1)
Justamente por conter tantas fontes de informação, a Internet e a Web foram e ainda são vistas por muitas pessoas como uma biblioteca em escala mundial.
Tal percepção, ainda que limitada, é coerente, pois o usuário da Internet e da Web tem acesso rápido a fontes tão variadas quanto artigos de jornal e revista, clássicos da literatura mundial, pesquisas científicas de ponta, música e mesmo programação de rádio e televisão.
Tecnologias da Comunicação (TC)
Cada vez mais, entretanto, são as TC que se destacam, uma vez que oferecem às pessoas um enorme potencial para interagir, geralmente com algumas vantagens em relação às tecnologias anteriormente existentes, como a correspondência postal e o telefone(2). São essas TC que as empresas, os centros universitários de pesquisa e os jovens de maneira geral começam a explorar cada vez mais.
As TC que expandiram o potencial de interação humano são o "correio eletrônico" (e-mail), o "bate-papo" (chat), as listas de discussão e os fóruns. Graças a elas, as pessoas podem estar acessíveis em qualquer lugar, seja em casa, no escritório ou na escola.
Esta maior acessibilidade já está modificando nossos conceitos sobre lazer, trabalho e estudo, que, a partir de agora, não mais se relacionarão necessariamente a atividades exercidas em certos lugares no mundo físico, mas sim a circunstâncias à conveniência do usuário.
TIC e Educação
O impacto das novas TIC sobre a Educação é notável, como nos apontam alguns indicadores:
(a) o aumento do número de instituições de Ensino Superior que oferecem cursos de extensão, graduação e pós-graduação total ou parcialmente on-line, ou seja, via rede mundial ou redes privativas;
(b) o crescente número de professores que, assim como outros profissionais, percebem a possibilidade e as vantagens de gerir seu próprio processo de aperfeiçoamento pela Internet, sem comprometer o horário de trabalho;
(c) o reconhecimento pelos próprios alunos (e de seus pais no caso do Ensino Fundamental e do Ensino Médio) da necessidade de que a Internet seja assimilada ao dia-a-dia da escola, da mesma forma como já o foi em seus lares.
Tal impacto até certo ponto se relaciona às expectativas da população de receber um ensino que capacite o cidadão para a fácil integração ao mercado de trabalho, onde a tecnologia é praticamente onipresente.
Crítica à presença das TIC na Educação
Há quem acredite que os efeitos das novas TIC sobre a sociedade ainda não são bem conhecidos e que, portanto, utilizá-las no processo educativo seria uma resposta pobre às crescentes demandas educacionais da sociedade. Para tais críticos, nada substitui a educação presencial e apenas esta deveria ser alvo de políticas e investimentos governamentais.
De fato, críticas à Internet existem e freqüentemente recebem destaque nos noticiários. Por outro lado, mesmo as críticas fundamentas em pesquisa, como o estudo do Stanford Institute for the Quantitative Study of Society (2000), que conclui que a Internet contribui para o isolamento social, apresentam aspectos metodológicos questionáveis, como aponta Nielsen (2000).
Parece mais sensato recomendar que, dada a recente emergência das TIC, tenhamos precaução ao apontarmos benefícios ou malefícios absolutos.
O que sabemos, por outro lado, é que a aprendizagem é um processo interno ao sujeito, portanto cumpre aos profissionais da Educação criar condições favoráveis à emergência deste processo, onde e quando possível. Partindo-se desse pressuposto, a Internet pode ser entendida apenas como mais um ambiente propício à aprendizagem e não como uma solução para os problemas da Educação nem tampouco como um substituto para qualquer outra modalidade educativa.
Objetivo do trabalho
Este trabalho terá a finalidade de abordar o papel do professor na criação de um ambiente propício à aprendizagem por meio das novas TIC relacionadas à Internet.
Nas próximas seções, abordarei:
1. aspectos técnicos das novas TC e suas implicações para o uso educacional;
2. princípios pedagógicos relacionados ao uso educacional das TC;
3. aspectos relacionados à capacitação do professor por meio das novas TIC.
Mais especificamente, abordarei tais aspectos no contexto da Educação Especial, tendo em vista o fato de que já começam a surgir ações governamentais destinadas a permitir a assimilação das novas TIC por alunos com necessidades especiais, como, por exemplo, o Projeto de Informática na Educação Especial - PROINESP (2000).
1. Aspectos técnicos das TC e implicações para seu uso educacional
Características das TC
As TC relacionadas à Internet podem ser classificadas como síncronas ou assíncronas.
Síncronas seriam aquelas TC que permitem aos interlocutores trocar informações em tempo real, ou seja, quase sem espera, tal como ocorre em conversas face a face e em ligações telefônicas. São exemplos de tecnologias síncronas os "bate-papos" de texto e de voz.
Assíncronas, ao contrário, são as TC que não permitem a troca de informações em tempo real, ou seja, entre o envio de uma mensagem e seu recebimento pode haver um distanciamento temporal que vai de segundos até meses, tal como ocorre com a correspondência postal. São exemplos de tecnologias assíncronas o "correio eletrônico" (individual e em listas de discussão) e o fórum.
A sincronia traz, por implicação, o critério da espontaneidade, que permite a divisão das mensagens entre mais espontâneas ou menos espontâneas.
Também à semelhança das conversas orais, TC síncronas tendem a permitir interações mais espontâneas, ou seja, menos planejadas, pois a rapidez de envio e recebimento das mensagens torna o planejamento de conteúdo e sua correção formal mais difícil.
TC assíncronas, por gerarem um atraso, permitem que o interlocutor planeje o conteúdo de sua mensagem e até faça várias revisões formais, o que, até certo ponto, pode diminuir a espontaneidade da interação.
Relevância das características técnicas das TC para a Educação Especial
O fato de uma TC ser mais ou menos síncrona e permitir uma interação mais ou menos espontânea traz conseqüências importantes para seu uso educacional. Vejamos como as características de cada TC podem influenciar seu uso na Educação Especial:
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"Bate-papo" |
Por ser síncrono, o "bate-papo" gera uma tensão maior, pois o tempo de participação é normalmente dividido entre vários participantes, sendo, portanto, quase sempre limitado. As mensagens também precisam ser curtas o suficiente para serem lidas no espaço exíguo oferecido pelas ferramentas de "bate-papo".
A tensão imposta pelo pouco tempo e a limitação de espaço nos "bate-papos" se manifestam na linguagem, que costuma ser caracterizada por formas lingüísticas e expressivas bastante simplificadas como, tais como abreviaturas (vc em lugar de 'você'; tb em lugar de 'também'; pq em lugar de 'porque') e acrônimos (EMHO para dizer 'em minha humilde opinião').
Estas características devem trazer ao professor as mesmas expectativas geradas pela conversa face a face. Isso significa que, apesar de grande parte dos "bate-papos" ser feita por meio de texto, o professor não deve estabelecer um foco na correção formal das mensagens de "bate-papo", assim como também não o faria se os alunos estivessem conversando informalmente na sala. Em outras palavras, o professor não deveria, por exemplo, usar o conteúdo das mensagens de "bate-papo" apenas para assinalar e corrigir erros lingüísticos e assim ensinar língua portuguesa.
Isso, por outro lado, não significa que os "bate-papos" sejam pouco úteis no processo educacional. Esta TC pode ser utilizada de modo criativo para permitir ao aluno a obtenção de diferentes habilidades durante a realização de tarefas.
Eis alguns exemplos de usos pedagógicos para os "bate-papos":
| Habilidades a desenvolver | Tarefas sugeridas |
| de socialização |
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| de cooperação | |
| de estudo |
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Uma das dificuldades inerentes ao uso do "bate-papo" na Educação Especial está na maior tensão que ele traz aos alunos com limitações físicas. Tal tensão, em alguns casos, poderá dificultar o pleno uso da ferramenta e seu aproveitamento. Nesses casos, o "bate-papo" de voz poderia ser uma alternativa, mas a qualidade dos serviços existentes ainda deixa a desejar.
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"Correio eletrônico" |
O "correio eletrônico", assim como as demais TC assíncronas, traz menor tensão, uma vez que o usuário tem a liberdade de apenas responder a uma mensagem recebida quando julgar que sua resposta está adequada ao contexto ou adequada na forma (na organização de idéias e no uso da linguagem).
Os programas de "correio eletrônico", conhecidos como clientes de correio eletrônico, ainda oferecem ao usuário a possibilidade de receber várias mensagens de uma vez, desconectar-se da Internet, lê-las e respondê-las quando quiser e na ordem em que quiser.
O "correio eletrônico" não impõe as mesmas limitações de tamanho e forma que o "bate-papo", o que permite a produção de mensagens relativamente mais longas e lingüisticamente mais elaboradas.
Tais características tornam o "correio eletrônico" uma ferramenta bastante adequada para o ensino e a reflexão sobre aspectos lingüísticos e discursivos, a saber:
| Aspectos | Objetivo |
| coerência e relevância |
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| compreensão geral |
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| polidez |
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| correção formal |
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O "correio eletrônico" pode ser utilizado na aquisição das mesmas habilidades de socialização, cooperação e estudo descritas para o "bate-papo". Sua vantagem principal está no fato de permitir ao aluno mais tempo para refletir e elaborar seu pensamento.
Quando distribuídas por listas de discussão, as mensagens de "correio eletrônico" permitem a interação de um grande número de alunos. As listas possuem um mecanismo para distribuir para todos os seus participantes uma mensagem enviada para ela. Todos podem ler as mesmas mensagens e têm a possibilidade de comentá-las livremente. Trata-se, portanto, de uma TC extremamente útil para a realização de trabalhos educativos em grupos.
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"Fórum" |
O fórum, enfim, é a ferramenta que causa menor tensão no usuário, uma vez que se baseia em um sistema no qual as mensagens postadas ficam permanentemente exibidas e organizadas por linha de discussão ('thread'). O usuário apenas precisa ter acesso ao sistema do fórum na Web (ou na rede local) para ler as mensagens e comentar as que desejar. Pode-se dizer que o fórum é uma TC relativamente menos dinâmica que as anteriores, mas, possivelmente, mais útil quando o aluno apresentar limitações que exijam mais tempo na leitura e na digitação de textos.
O fórum pode ser interessante como ferramenta de socialização ou de discussão mais aprofundada de temas. Se utilizado com a primeira finalidade, não é recomendável que o professor faça correções ou destaque problemas no texto do aluno. Se utilizado com a segunda finalidade, algum trabalho de conscientização lingüística e discursiva pode ser empreendido.
2. Princípios pedagógicos no uso educacional das TC
A Educação (Especial ou não) deveria explorar o potencial para interação expandido pelas novas TC. Para alcançar este objetivo, parece interessante adotar um modelo pedagógico em que os alunos se comuniquem uns com os outros livremente durante a realização de atividades para trocar informações, buscar auxílio e prestar apoio mútuo.
Este modelo pedagógico poderia ter as seguintes características:
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Foco no aluno e na aprendizagem. |
A pedagogia tradicional privilegia o professor e o ensino ao criar uma economia simbólica na qual o professor deposita conhecimentos nos alunos para em seguida avaliar se foram retidos.
A interação possível nesse contexto costuma seguir um padrão bastante rígido de pergunta-resposta-avaliação, normalmente em um único sentido:
PERGUNTA DO PROFESSOR: Quantos são os estados físicos da água?
RESPOSTA DO ALUNO: Três. Sólido, líquido e gasoso.
AVALIAÇÃO DO PROFESSOR: Certo.
Se as TC permitem que a interação se dê entre professor e aluno e entre aluno(s) e aluno(s), torna-se fácil perceber que elas potencializam a superação do padrão descrito e dão aos alunos a possibilidade de eles mesmos fazerem as perguntas ao professor ou a outro(s) aluno(s), e, indo além do perguntar, elas permitem que os alunos consigam as respostas por si mesmos e entre si mesmos.
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Professor observador, animador e auxiliador. |
Tal mudança no padrão interacional não implica em que o professor fique sem função marcada na dinâmica da sala de aula. Na verdade, sua função torna-se mais complexa, pois, em lugar de simplesmente depositar e avaliar conhecimentos, ele passa a acompanhar o processo pelo qual o aluno elaborará tais conhecimentos.
Para fazer esse acompanhamento, o professor precisa observar o aluno para entender se ele está motivado ou preparado para aprender algo novo, se é capaz de investir atenção na aprendizagem e, mais importante, se compreende a relevância do conhecimento novo para que possa fazer tal investimento.
Uma vez que o aluno esteja motivado e disponha dos pré-requisitos necessários, ou seja, tenha conhecimentos ou habilidades previamente adquiridas, o professor precisa acompanhar o progresso do aluno, estimulando-o e fornecendo ajuda quando solicitado, ou melhor, indicando onde e como o aluno poderá obtê-la por si mesmo em sua ausência.
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Estímulo à autonomia do aluno. |
Ao demonstrar ao aluno de que forma ele poderá obter ajuda por seus próprios meios, o professor deverá contribuir para que ele desenvolva sua capacidade de avaliar quando tal ajuda será necessária, de quem ou de onde poderá obtê-la e, posteriormente, se ajuda obtida foi suficiente. Se executar essa função, o professor demonstrará estar comprometido com o desenvolvimento da autonomia do aluno.
As TC e as TI podem servir muito bem a este propósito, pois permitem que o aluno obtenha ajuda de outros alunos por "correio eletrônico e "bate-papo" ou por meio de ferramentas da Web como os mecanismos de busca. Cumpre ao professor, portanto, ensinar como os alunos poderão utilizar tais tecnologias de modo eficiente.
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Respeito às diferenças individuais. |
A fim de permitir o desenvolvimento da autonomia do aluno, o professor precisa compreender que as diferenças individuais necessariamente influirão no processo. Alguns alunos necessitarão de mais ajuda do que outros, mesmo após a aquisição das habilidade de uso das TC e das TI.
Não é justo esperar, portanto, que todos tenham um progresso uniforme, mesmo usufruindo dos mesmos recursos tecnológicos.
Também é importante ter em mente que as limitações específicas de cada aluno influirão no nível de habilidade alcançada no uso das TIC, ainda mais tendo em vista que essas tecnologias nem sempre são planejadas para que tenham uso fácil por pessoas com necessidades especiais.
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Trabalho realizado em equipe. |
O trabalho docente necessariamente dependerá de uma equipe de psicólogos, pedagogos e técnicos capazes de solucionar problemas nos equipamentos e nos programas utilizados para acesso à Internet. Mais importante, entretanto, é que o professor compreenda que precisará do apoio de outros professores na realização de seu trabalho (v. Educação Continuada do Professor).
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Trabalho discente em projetos de grupo e estímulo à descoberta. |
Finalmente, os alunos precisarão perceber a relevância de todo trabalho proposto que venha a ser realizado por eles com o uso das TIC. Isso significa que eles não deverão adquirir o uso dos recursos tecnológicos como um fim em si mesmo, mas sim como uma ferramenta a serviço de seu crescimento e de sua integração social, acadêmica e profissional.
Para alcançar tal propósito, é mais recomendável que o uso das TIC seja feito de modo integrado ao currículo escolar e pela realização de projetos coletivos. Essa forma de trabalho não só ressalta o papel instrumental das tecnologias, mas também desenvolve habilidades de cooperação fundamentais para o futuro desempenho profissional dos alunos.
Além disso, tendo em vista que a aprendizagem é um processo que ocorre em função de aspectos cognitivos, sociais e afetivos, torna-se claro que aos educadores também cumprirá o papel de elaborar projetos que estimulem o desejo de participação e de engajamento ativo dos alunos.
3. Educação Continuada do Professor
Assimilação das TIC para atuação do professor
A assimilação das TIC na Educação Especial não resultará simplesmente da instalação de computadores nas escolas e do treinamento do professor para utilizar editores de texto, planilhas e navegadores (browsers) da Internet. Ela resultará necessariamente da real assimilação das TIC pelo professor.
Um relatório da Web-Based Education Commission (2000), ou Comissão de Educação Baseada na Web, para o Presidente e o Congresso dos Estados Unidos (The Power of the Internet for learning), essa perspectiva é salientada:
O treinamento tecnológico básico não basta. [...] Muitos [professores que têm facilidade para usar computadores] não sabem como aplicar esta habilidade no ensino em sala de aula. [...] A habilidade para usar a tecnologia com fins não educacionais não se traduz necessariamente nem na disposição nem na capacidade para usar a tecnologia em apoio à aprendizagem dos alunos. [...] O desenvolvimento profissional é o ingrediente crítico para o uso eficaz da tecnologia na sala de aula. [...]Ele significa o desenvolvimento de uma visão construída sobre a compreensão de que a tecnologia é uma ferramenta que pode oferecer solução para velhos problemas de ensino e aprendizagem. É mais do que saber como automatizar práticas antigas. É a compreensão cada vez maior que advém da confiança para "pensar com a tecnologia" a fim de utilizar novas abordagens para lidar com velhos problemas. [p. 40]
Defendo que a tecnologia seja primeiramente assimilada ao processo de capacitação ou educação do professor para que seja assimilada ao seu trabalho em Educação (Especial). Em outras palavras, o professor precisa atribuir valor à tecnologia pelo seu potencial na facilitação de sua própria aprendizagem a fim de que possa compreender como ela será útil na facilitação da aprendizagem de seus alunos.
Proponho, em resumo, que o professor se ponha concretamente na posição de aluno, que passe pela experiência de uma aprendizagem mediada pelas TIC, durante a qual poderá compreender seu valor e explorá-lo em seu benefício pessoal e profissional.
Redes de aprendizagem e de cooperação
Um dos problemas mais freqüentes dos professores americanos, como aponta o relatório citado, é o isolamento de seus pares. Eles reclamam que não têm contatos com colegas que possuam interesses, responsabilidades e desafios semelhantes. Tais contatos, se existissem, poderiam permitir a criação de redes (ainda que informais) de apoio mútuo para troca de idéias e busca de soluções.
As TIC permitem a criação de tais redes, como a rede SACI, por exemplo, que oferece apoio no Brasil aos profissionais que atuam junto a pessoas com necessidades especiais e, principalmente, a estas pessoas. Por meio dessas redes, é possível construir projetos conjuntos, prestar apoio a colegas em regiões remotas e mesmo atender a solicitações de pais e alunos.
Os professores, mais especificamente, podem encontrar em tais redes não apenas apoio na solução imediata de problemas, mas também materiais de estudo para aperfeiçoamento contínuo, que podem ser recomendados por especialistas ou mesmo por outros colegas que atuem em Educação Especial.
A cooperação mediada pelas TIC, dessa forma, criaria um contexto de educação continuada (ainda que informal) para a capacitação do professor que atua em Educação Especial.
Conclusão
O real impacto das TIC na aprendizagem de professores e alunos ainda precisará ser avaliado por pesquisas. Deve-se compreender que essas novas tecnologias, assim como as tecnologias educacionais anteriores, também têm limitações.
Cumpre aos educadores desenvolver práticas pedagógicas que tenham como foco o aluno e suas expectativas e potenciais e não a tecnologia e seus potenciais, mesmo porque a tecnologia disponível hoje deverá tornar-se superada em apenas alguns anos.
Para realizar essa tarefa, como sugerido, os professores deverão passar eles mesmos pela experiência de aprendizagem continuada mediada pelas TIC. Apenas dessa forma eles assimilarão a importância instrumental que tais tecnologias apresentam para o processo de ensino e aprendizagem. Trata-se, portanto, muito mais de ensinar o professor a aprender de modo autônomo e a trabalhar de modo cooperativo do que de treiná-lo para usar programas de computador.
Seria injusto, portanto, apenas treinar professores e alunos para usar computadores para enviar mensagens de "correio eletrônico" ou navegar pela Internet, sem de fato capacitá-los a entender de que forma tais habilidades contribuirão para seu desenvolvimento acadêmico e pessoal.
Referências Bibliográficas
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, SECRETARIA DE EDUCAÇÃO ESPECIAL. Projeto de Informática na Educação Especial (PROINESP). [On-line] Disponível em http://www.mec.gov.br/seesp/Ftp/PROINESP.pdf, 2000.
NIELSEN, J. Does the Internet Make us Lonely? [On-line] Disponível em http://www.useit.com/alertbox/20000220.html , 2000.
STANFORD INSTITUTE FOR THE QUANTITATIVE STUDY OF SOCIETY. The Internet Study: More detail. [On-line] Disponível em http://www.stanford.edu/group/siqss/Press_Release/press_detail.html , 2000.
WEB-BASED EDUCATION COMMISSION. The Power of the Internet for Learning. [On-line] Disponível em http://www.ed.gov/offices/AC/WBEC/FinalReport/, 2000.
Notas
Ainda que inicialmente me refira a Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC), em outras parte do trabalho faço distinção entre Tecnologias da Informação (TI) e Tecnologias da Comunicação (TC). Neste trabalho, o foco da discussão será sobre as
TC. (voltar ao texto)
O "correio eletrônico" (e-mail) é não apenas mais rápido que a correspondência postal, mas também mais barato. O "bate-papo" (chat) de texto ou voz permite que se estabeleça uma conversa simultânea com alguém em outro país pelo preço de uma ligação local.(voltar
ao texto)
Um grupo de alunos se reúne para criar uma história ou continuar uma história cujos elementos iniciais são oferecidos. Trabalha-se, neste caso, a noção de enredo, o encadeamento de fatos, a percepção de características dos personagens e a coerência entre as motivações e as ações destes personagens.(voltar ao texto)
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Em busca do tesouro: aprendendo a encontrar algo útil na web |