Conect@ - número 3 - novembro/2000


A SOCIEDADE CONECTADA: CAMINHOS PARA A FORMAÇÃO DE PROFESSORES

Ligia Silva Leite
Doutora em Educação - Temple Unversity - EUA
Faculdade de Educação, UFRJ
School of Education, Unversity of Central Florida, EUA
Instructional Tecnology and Distance Education,
Nova Southeastern University, EUA
Universidade Católica de Petrópolis

Lígia Silva Leite

Christina Marília Teixeira da Silva.
Doutora em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ

Mestre em Educação pela Faculdade de Educação/UFRJ
Professora da Faculdade Educação da UFRJ


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Resumo

O trabalho toma por base a realidade da sociedade tecnológica atual que gera necessidade de mudanças nas diversas esferas educacionais, principalmente no trabalho do professor para lidar com as novas tecnologias. Esta realidade social sinaliza para a exigência de se repensar práticas docentes, que tradicionalmente privilegiam a comunicação oral em detrimento da construção coletiva do conhecimento. São apresentadas recomendações para o uso pedagógico das redes de computadores na formação de professores, ressaltando a necessidade de um novo paradigma educacional.

Palavras-chave: Formação de Professores; Redes de Computadores em Educação

 

Introdução

Vivemos hoje sob a influência de um processo de globalização no qual as novas tecnologias se destacam, causando profundas alterações na sociedade em que vivemos. À medida que marcam sua presença na sociedade, estas tecnologias afetam valores, identidades, formas de trabalho, formas de pensar e de sentir (Piscitelli, 1997). Idéia esta compartilhada por Moran (1998) que destaca a presença de mudanças também em vários conceitos como os de espaço, de tempo, do que é real e virtual, do que é tradicional e inovador. 
A enorme velocidade com que se desenvolve a tecnologia torna difícil determinar seus rumos, sua qualidade e suas aplicações educativas. Por outro lado, a educação se move tão lentamente que a distância entre a tecnologia e o processo educativo se torna cada vez mais ampla. Concordamos com Sancho (1999) em relação a atitude a ser adotada diante desta realidade, ou seja, a necessidade de nos apropriarmos dos processos desenvolvendo habilidades que permitam o acesso e o controle das tecnologias e de seus efeitos. Daí a importância de se formar professores sintonizados com a sociedade tecnológica (Leite & Silva, 2000). São da mesma opinião Battro e Denham (1997), que defendem a necessidade de se formar um número cada vez maior de docentes e profissionais, pois serão eles que estarão aptos a escolher corretamente seus próprios instrumentos digitais para o ensino e a aprendizagem, sem passar pelo filtro tecnocrático e comercial.

No que diz respeito à educação, Piscitelli (1997) ressalta que uma mudança importante introduzida pela presença das redes de computadores, quanto à produção de conhecimento, é que ele não mais se constrói apenas indutiva ou dedutivamente, mas de forma interativa. Destacando o potencial das redes eletrônicas para a educação, Moran (2000) apresenta seus possíveis usos pedagógicos: (a) na divulgação do conhecimento; (b) na pesquisa; (c) no apoio ao ensino; e (d) na comunicação interpessoal.

Não é surpresa para os professores que já utilizaram tecnologia em sala de aula que este processo é longo e árduo (Silva, 1997, 1999). Introduzir computadores, ferramentas de telecomunicações ou qualquer outro recurso tecnológico nas experiências de aprendizagem dos alunos não resulta automaticamente na melhoria da aprendizagem. Para que haja uma maior integração dessas tecnologias no processo educativo é necessário que os professores: (a) sintam-se confortáveis ao utilizar a tecnologia; (b) explorem recursos de ensino como software educativo, CD-ROM, Internet para identificar aqueles que possam enriquecer o seu curso; (c) repensem o seu curso para determinar a melhor maneira de integrar essa tecnologia nos seus planos de aula; (d) revejam os planos de aula para incorporar a tecnologia; (e) testem os planos na sala de aula; (f) avaliem como eles funcionam; e (g) refinem suas aulas (McGrath, 1998).

A realidade da sociedade atual gera necessidade de mudanças. Especialmente na educação, devido ao seu importante papel na formação do novo cidadão exigido por esta sociedade, torna-se cada vez mais necessário o devido preparo dos educadores para lidar com as redes de computadores. Ressaltamos que a necessidade de formação de professores via rede se coloca como mais um caminho possível na tentativa de ajustar esta formação ao momento atual, não invalidando práticas pedagógicas mais tradicionais. Na próxima seção, são discutidas algumas estratégias de formação.

 

Buscando caminhos para a formação de professores

A educação da atualidade, da sociedade conectada, deve privilegiar a renovação de conteúdos e de métodos pedagógicos para melhorar a eqüidade, desburocratizar e homogeneizar as oportunidades educacionais. Para que essas características se efetivem, é preciso que o investimento, no que diz respeito à presença do computador no ensino, seja diferente daquele realizado pelas escolas norte-americanas: 90% para a aquisição de novos equipamentos e somente 10% para a formação de professores (Piscitelli, 1997).

Valente (1998a), ao analisar a capacitação de recursos humanos em informática educativa, estabelece distinção entre cursos de treinamento e cursos de formação. No treinamento, adiciona-se alguma técnica ou conhecimento à técnica que o profissional já dispõe, isto não implicando, necessariamente, em mudança de atitudes ou de valores. Este é o caso do professor que é treinado para usar uma nova tecnologia, mas cuja atuação em sala de aula praticamente não se modifica. Na formação, deve-se, ao menos, propiciar meios para que haja uma mudança na forma do professor "ver a sua prática, entender o processo de ensino-aprendizagem e assumir uma nova postura como educador" (p. 141). Na formação deve-se oferecer situações onde os professores possam praticar o que aprendem, criticar, refletir sobre sua prática e depurar sua atitude, baseados na reflexão e nos conflitos vividos.

Na formação não se deve optar pelo ensino sobre computação e sim pelo ensino através do computador. Valente (1998b) informa que no treinamento o usuário utiliza o computador para adquirir conceitos computacionais tais como princípios de funcionamento da máquina, noções de programação e impactos do computador na sociedade, contribuindo essa modalidade muito pouco para a melhoria da qualidade do ensino. Já o ensino pelo computador implica que o usuário, por meio da máquina, venha a adquirir conceitos em diferentes domínios.

Visando a formação de professores, quanto ao uso pedagógico das redes de computadores, os responsáveis pelo sistema educacional devem realizar, entre outras estratégias: (a) debates e seminários com o objetivo de desmitificar o computador, diminuir a resistência à tecnologia educacional e quebrar o ceticismo em relação à utilidade do computador para a educação; e (b) cursos de formação, que não devem se limitar ao ensino de conteúdos e habilidades. Essas duas abordagens são importantes porque é necessário que os professores adquiram compreensão das relações entre a informática e a sociedade, além de uma visão crítica dos diferentes usos do computador na educação (Oliveira, 1997).

A questão da formação de professores é complexa e, ao se definir o modelo desejado, deve-se levar em conta questões relacionadas aos possíveis papéis do professor no processo de ensino-aprendizagem: usuário de aplicativos, elaborador de softwares educacionais, avaliador de programas. Roitman (citada por Oliveira, 1997) alerta para a necessidade de cada país pesquisar "formas próprias de preparo e aperfeiçoamento dos professores ao invés de simplesmente importar soluções encontradas em outras culturas" (p. 94).

Deverão ser desenvolvidos programas de formação de professores que, segundo Stahl (1997), não apenas transfiram para a tecnologia o processo de ensino-aprendizagem na forma que ocorre na sala de aula. É fundamental que sejam realizadas alterações profundas nesse processo e que os professores sejam capazes de estabelecer o quê, como, onde, por quê, para quê, a quem e para quem servem as novas tecnologias. Eles só estarão capacitados para tal se possuírem: (a) sólida formação inicial; (b) percepção clara do contexto sócio-político-econômico-cultural; (c) preocupação com a relação entre teoria e prática; (d) busca de constante auto-aperfeiçoamento; (e) aceitação e uso de inovações; (f) ênfase no trabalho cooperativo e multidisciplinar; e (g) consciência de ser agente de mudança. Para o sucesso desta proposta, no entender de Stahl (1997), devem ser oferecidos ambientes que funcionem como verdadeiras salas de aula virtuais, não repetindo o modelo tradicional, mas incentivando tanto o trabalho independente quanto o cooperativo.

O material didático sempre esteve presente em qualquer processo de ensino-aprendizagem, devendo estar coerente com a filosofia educacional adotada. A presença da WWW (World-Wide Web) na educação não alterou este fato: os programas disponibilizados na rede também se constituem em material didático. É importante, portanto, que o material elaborado para a formação de professores via rede atenda a requisitos tais como os sugeridos por Kilby (1997):

1. Desenvolver o material didático para o usuário, não para a tecnologia: cada etapa do processo de desenvolvimento do material deve atender às necessidades do usuário, ao invés de simplesmente incorporar as características de performance da tecnologia.

Comentário: Nota-se aqui a atenção dada ao usuário, no nosso caso o professor em formação e a tecnologia é compreendida como ferramenta auxiliar ao processo de formação.

2. Escolher os tipos de mídia baseado nos objetivos de aprendizagem: a questão é acelerar a aprendizagem e melhorar o desempenho e não impressionar o usuário visualmente (por exemplo, o vídeo não é adequado para todos os tipos de aplicações);

3. Fornecer ao usuário grande quantidade de interatividade: o programa deve favorecer uma interação ativa do usuário com a informação, ao invés de simplesmente fornecer uma grande quantidade de áreas para o usuário clicar ao acaso com o mouse;

Comentário: A tecnologia deve ser usada de forma a não dispersar a atenção do professor, e sim buscar sua participação ativa na construção de seu conhecimento, facilitando a interação deste com o conteúdo trabalhado.

4. Planejar para que o material se adapte a diferentes níveis de habilidade: o material didático deve oferecer feedback significativo, consistindo em um reforço periódico que solidifique cada etapa trabalhada dentro de uma base sólida para o próximo nível;

5. Atender a uma variedade de estilos de aprendizagem: pessoas diferentes tendem a aprender de formas diferentes (por exemplo, alunos "visualizadores" preferem figuras e alunos "verbalizadores" preferem texto);

Comentário: A Web possibilita a construção de materiais didáticos que atendem a diferentes estilos de aprendizagem, embora seus recursos tecnológicos ainda não sejam explorados pedagogicamente de maneira adequada.

6. Preferir o modo não linear: Embora seja perfeitamente aceitável sugerir um caminho para o aluno examinar o material, não é aceitável exigir um caminho predeterminado através de um conteúdo estruturado de forma linear;

Comentário: A característica mais marcante da Web é a possibilidade de construção de conhecimento de forma não linear, o que aumenta consideravelmente o potencial desta tecnologia para uso educacional.

7. Respeitar o aluno: deve-se permitir que o aluno fique no controle de sua aprendizagem e evitar conteúdos ou feedbacks não significativos ou não motivadores;

8. Testar o projeto da interface em usuários reais: materiais didáticos com um projeto inadequado desmotivam o usuário e dificultam a aprendizagem (ícones, botões e características de navegação que são intuitivamente óbvias para usuários mais experientes podem confundir outros usuários).

Comentário: Devido a complexidade da Web, é necessário testar o material didático, apesar dessa prática não ser comum no ambiente pedagógico.

Alguns autores sugerem estratégias com uso de tecnologias que podem ser consideradas hoje demasiadamente sofisticadas para a realidade educacional brasileira. Este é o caso de Piscitelli (1997) que sugere o emprego da televisão inteligente com capacidade de transmitir a programação de mais de quinhentos canais de TV a cabo; essa televisão também estará em breve conectada diretamente à Internet, meio com grande potencial interativo. Para esse autor, as estratégias de formação de professores devem, na medida do possível, utilizar "agentes inteligentes": programas de computador com alta capacidade de interagir com o usuário e de provocar sua participação ativa. Estes programas "analisam/estudam" os hábitos e preferências do usuário, apresentando-lhe um "programa" personalizado. Como hoje não se pode conhecer/dominar todas as tecnologias disponíveis, é necessário que o professor tenha a oportunidade de capacitar-se naquilo que mais lhe interessa e que é adequado às suas necessidades profissionais. Dispondo de "agentes inteligentes" talvez os professores tenham maior possibilidade de manterem-se atualizados nessa sociedade marcada pela renovação tecnológica permanente.

Outra estratégia consiste na criação de uma infra-estrutura tecnológica que possa ser usada administrativa e pedagogicamente. Schlumpf (1998) considera que "a criação de uma infra-estrutura tecnológica na escola é hoje tão importante quanto um caderno espiral e um lápis" (p. 16 A). O distrito de escolas independentes de Houston, EUA, citado por este autor, seguiu este modelo, cujo passo inicial consistiu na criação de uma ampla base de dados sobre os alunos, além de permitir acesso à informação via e-mail e Internet, teleconferência e educação a distância. Pode-se, também, seguir o exemplo da Universidade de Stanford, que oferece cursos na Internet à medida que há demanda. As aulas são gravadas em vídeo, depois digitalizadas, catalogadas e organizadas de acordo com as anotações do professor e com imagens do quadro-negro. Uma vantagem dessa modalidade de curso (aulas em vídeo via computador) é que se o aluno perder uma aula, ou não compreender uma informação, ele pode revê-la, embora corra-se o risco de reproduzir eletronicamente um modelo pedagógico presencial.

Um outro exemplo de infra-estrutura, ainda sofisticada para nossa realidade, consiste na criação de uma rede sem fio, projetada para usar todos os benefícios da tecnologia portátil. Neste caso todos os profissionais envolvidos no processo de formação devem possuir um computador notebook. Assim os "alunos" podem se conectar a bate-papos on-line para esclarecer dúvidas e trocar opiniões, participar de debates com colegas e entregar trabalhos via e-mail. Podem ser feitos cursos (inclusive trabalhos e testes) via rede.

No entender de Oliveira (1997), para que a formação seja eficaz, as pessoas responsáveis por ela devem estar preparadas tanto nos aspectos ligados à informática quanto nos aspectos pedagógicos da utilização da tecnologia em ambientes de aprendizagem. Essa formação só será encontrada em um processo que tenha como referência o papel político-pedagógico esperado do professor. Devido à grande velocidade com que novos equipamentos e programas são desenvolvidos, a formação não deve ocorrer em um momento único; é necessário que este processo seja permanente, possibilitando aos professores o acompanhamento das mudanças.

Hoje, a educação continuada é claramente valorizada. Isso pode ser observado na necessidade que as pessoas vêm sentindo em se reciclarem para poder dar conta de novos desafios pessoais e profissionais: "As pessoas percebem que, se não mudarem, ficarão para trás e isso as faz estar atentas a novas informações e às atualizações necessárias" (Moran, 1998, p. 53).

A renovação tecnológica permanente é outro tema importante a se levar em conta. Devemos refletir com o maior cuidado para saber quando convém atualizar determinada tecnologia, por que fazê-lo, quais são os custos e o impacto educativo de tal mudança. Cada escola deve ter um projeto tecnológico claro, flexível e atualizável mas nunca comprar equipamentos/programas por impulso, moda ou recomendação de outra pessoa (Battro & Denham, 1997). A integração de novas tecnologias com as já existentes, dentro de uma proposta pedagógica nova, criativa e aberta, é defendida por Moran (1997).

É inegável o grande potencial das redes de computadores para a educação. No entanto, se observarmos o caso das universidades públicas brasileiras, carentes de recursos humanos e de infra-estrutura, a viabilidade da formação dos educadores em novas tecnologias torna-se bastante questionável. Isto, sem dúvida, prejudica a formação de profissionais de educação que terão dificuldade em utilizar apropriadamente estas tecnologias em ambientes de ensino-aprendizagem. Na próxima seção, são apresentados aspectos promissores e também dificuldades na implementação de redes na educação.

 

Implementando redes de computadores na educação: a necessidade de um novo paradigma

Existem resultados promissores na utilização das redes na educação, bem como alguns problemas. Dentre os aspectos mais freqüentemente relatados na literatura, pode-se mencionar os seguintes:

As recomendações anteriores só fazem sentido se atreladas a um projeto político-pedagógico construído pelos participantes do processo educativo no qual o curso de formação de professores estiver inserido.
Apesar das potencialidades e atuais limitações das redes para uso na educação, o grande desafio consiste em integrá-las em um novo paradigma educacional, onde professores e alunos pesquisam e aprendem juntos, visando a construção comum do conhecimento.

Devemos estar cientes de que a enorme quantidade de informação disponibilizada pelas redes não implica necessariamente em mais e melhor conhecimento: "O conhecimento se torna mais produtivo se o integrarmos em uma visão ética pessoal, transformando-o em sabedoria, em saber pensar para agir melhor" (Moran 1998, p. 153). Este é um aspecto que não pode ser subestimado, principalmente quando se trabalha com a formação de profissionais responsáveis pela formação de indivíduos que possam atuar de forma consciente na sociedade.

Estamos em plena fase de transição da tecnologia analógica para a digital, o que não significa que a educação tenha assimilado a profunda transformação de suas ferramentas pedagógicas: "Será preciso uma nova geração de educadores, eles mesmos educados nas modalidades digitais, para que a transformação se complete" (Battro & Denham, 1997, p.59).

Maddux (1994) acredita que a Internet pode ser de grande valor para a educação. Entretanto, como qualquer inovação, o uso da rede pode resolver uma série de problemas, mas também pode introduzir novos problemas que devem ser solucionados, a fim de que a Internet possa contribuir de forma eficaz no processo de ensino-aprendizagem.

Finalizando, as autoras deste artigo concordam com a posição de Piscitelli (1997) para o qual, diante da tecnologia, há duas atitudes manifestas: a dos tecnofílicos e a dos tecnofóbicos, a dos tecnootimistas e a dos tecnopessimistas. Assim, podemos ignorá-la, e ela nos atropela, ou a assimilamos e a integramos. Com a difusão da tecnologia, ao invés de reagirmos como aprendiz de feiticeiro, devemos ser cautelosos e vê-la como um grande desafio, mas também como uma grande oportunidade.

 

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