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Conect@ - número 4 - fevereiro/2002 |
Construindo recursos eletrônicos de aprendizagem: uma experiência bem sucedida
Resumo
Este trabalho descreve a experiência desenvolvida com as alunas do Curso de Pedagogia da Universidade Católica de Petrópolis na disciplina Tenologia Educacional, como parte do processo de alfabetização tecnológica do professor, segundo o conceito de Sampaio e Leite (1999). O trabalho focalizou o estudo teórico-prático das tecnologias que podem participar das práticas pedagógicas e a construção de uma tecnologia eletrônica específica, a "home page" instrucional. Exemplos dos trabalhos desenvolvidos bem como o depoimento dos alunos sobre a experiência são apresentados como evidência do seu sucesso.
Recursos eletrônicos, por quê?
O desenvolvimento de máquinas, equipamentos, processos, instituições, etc para nos prepararmos para a sociedade tecnológica já não faz parte do futuro, se apresenta como uma necessidade contínua e atual. A mudança tecnológica, que caracteriza o século XX aconteceu de forma contínua e acelerada, "com efeitos multiplicativos e revolucionários sobre praticamente todos os campos da experiência humana e em todos os âmbitos da vida do planeta." (Sevcenko, 2001, p.23)
O processo educativo, por sua vez não entrou neste novo século intocado por essas mudanças. A dinâmica do processo educativo precisa reconhecer hoje o contexto sócio-econômico que o rodeia. E "a escola não pode colocar-se à margem do processo social, sob a pena de perder a oportunidade de participar e influenciar na construção do conhecimento social e ainda de democratizar a informação e o conhecimento." (Sampaio e Leite, 1999, p.17)
Conseqüentemente, o professor, profissional responsável perante a sociedade, pela educação sistemática dos nossos cidadãos, precisa estar preparado para integrar a tecnologia na sua prática educativa. Daí a importância das disciplinas dos cursos de formação de professores oferecerem oportunidades e experiências de aprendizagem que sirvam de referencial para a prática docente dos futuros professores. Experiências essas que devem estar consonantes com o processo de alfabetização tecnológica do professor, que segundo Sampaio e Leite, 1999) é definido como:
Envolve o domínio contínuo e crescente das tecnologias que estão na escola e na sociedade, mediante o relacionamento crítico com elas. Esse domínio se traduz em uma percepção do papel das tecnologias na organização do mundo atual - no que se refere a aspectos locais e globais - e na capacidade do professor em lidar com essas diversas tecnologias, interpretando sua linguagem e criando novas formas de expressão, além de distinguir como, quando e por que são importantes e devem ser utilizadas no processo educativo. (p.100)
Comprometidos com esse conceito, procurou-se na disciplina Tecnologia Educacional, oferecida ao Curso de Pedagogia da Universidade Católica de Petrópolis, desenvolver um trabalho pedagógico que desse às alunas oportunidade de construir seu conhecimento dentro da perspectiva da alfabetização tecnológica do professor.
Coerente com esse conceito, durante a realização do curso, foi também considerada a idéia de que o conhecimento das tecnologias por parte do professor é fundamental, uma vez que compõe parte do tecido que forma sua rede de conhecimento, pois como afirma Alves e Garcia (2000), o processo de interação de cada professor com cada tecnologia é único; ou seja, "cada um [professor] vai ter uma interferência individual, diferenciada para o que recebe [tecnologia], de acordo com suas redes anteriores de conhecimento" (p.2). Procurando ser coerente com essa idéia, o aluno neste curso teve a liberdade de escolher a tecnologia que desejava trabalhar mais de perto para poder, então, construir seu conhecimento de acordo com a bagagem de conhecimento que já trazia, combinando-a com a pesquisa teórica realizada durante as aulas.
O contexto institucional
A Universidade Católica de Petrópolis, fundada em 1953, na cidade serrana do norte fluminense de Petrópolis, possui cerca de 7000 alunos e 20 cursos superiores.
A cidade de Petrópolis possui, segundo sua prefeitura, 286 348 habitantes; e atua em setores de tecnologia de ponta (informática, mecânica de precisão, eletroeletrônica, química fina, etc.), turismo, têxtil, vestuário, moveleiro, serviços de manutenção e reparo. Seu parque industrial emprega 35 mil pessoas direta e indiretamente e a cidade também se destaca pela sua produção agrícola.
O Curso de Pedagogia desta universidade atende hoje a 400 alunos e seu currículo é composto por um "conjunto de disciplinas que o torna dinâmico e atualizado ...com uma proposta acadêmica consistente e direcionada para a investigação científica, articulada com a prática." . (Universidade Católica de Petrópolis, 2001) Entende-se que um currículo com esta proposta necessita estar em sintonia com os desafios da sociedade atual.
O contexto pedagógico
O trabalho foi realizado na disciplina Tecnologia Educacional, oferecida para os alunos do 4º período do Curso de Pedagogia. E foi desenvolvida sob a responsabilidade da professora-pesquisadora do Curso de Mestrado em Educação da UCP, autora do artigo, que vem realizando estudos nesta área.
Inscreveram-se 36 alunos na disciplina cujo objetivo, segundo a coordenação do Curso de Pedagogia é o seguinte:
Propor experiências de aprendizagem que propiciem aos graduandos análise e evolução histórica do conceito de Tecnologia Educacional bem como os diferentes discursos que a fundamentam. |
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Analisar o posicionamento teórico de autores referentes aos fundamentos psicológicos da Tecnologia Educacional discutindo e confrontando os aspectos positivos e negativos de cada qual segundo uma visão crítica da aplicação da Tecnologia Educacional aos problemas da educação. |
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Oferecer subsídios para que os alunos reflitam criticamente sobre as questões que emergem das diferentes contribuições do pensamento dos autores analisados face a uma pedagogia denominada tecnológica. |
As aulas foram realizadas no semestre de 2001.2 com encontros semanais de 3 horas-aula cada e o programa adotado contemplou os seguintes temas:
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Histórico e evolução conceitual da TE; |
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Dispositivos informacionais e a sociedade atual; |
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TE e a formação do professor; |
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TE na sala de aula: tecnologias independentes e dependentes; |
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'Home page' instrucional: conceito, papel pedagógico e construção. |
A dinâmica da disciplina
O curso foi realizado procurando desenvolver um trabalho pedagógico adequado ao momento atual, centrado no aluno, com uma dinâmica pedagógica de construção do conhecimento relacionado à tecnologia educacional, provocando a descoberta por parte do aluno, seu questionamento, análise e crítica dos conceitos e idéias trabalhadas, além de oferecer a oportunidade de realizar uma atividade prática, direcionada à disciplina e atividade docente a ser desempenhada pelos atuais alunos.
Foram realizadas as seguintes atividades:
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Estudo, fichamento e discussão em pequenos e grandes grupos de textos que focalizaram os três primeiros temas listados acima; |
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Trabalhos em grupo cujo propósito foi introduzir as diversas tecnologias educacionais. Essas atividades contemplaram o quarto tema da lista acima; |
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Criação, em dupla, de uma "home page" instrucional a ser apresentada oralmente para a turma. |
A "home page" instrucional deveria trabalhar um conteúdo que abordasse os seguintes aspectos de uma tecnologia educacional a escolha da dupla: conceito da tecnologia, revisão bibliográfica com pelo menos uma referência da web (abordando características comunicacionais e uso pedagógico da tecnologia), descrição de duas experiências práticas de utilização pedagógica da tecnologia na sala de aula, especificando: objetivos, conteúdo, série, descrição do modo de utilização da tecnologia pelo professor e pelo aluno; análise crítica do uso pedagógico dessa tecnologia na sala de aula.
Tecnicamente a "home page" instrucional deveria possuir as seguintes características: dois formatos de fontes diferentes, duas cores diferentes de fontes, fundo, uma linha horizontal, um "clipart", dois vínculos com "websites", relacionados ao tema, sendo um a partir do texto e o outro a partir de uma imagem.
Construindo com a Internet
As aulas seguintes foram utilizadas para construção da "home page" instrucional, conceituada como documento eletrônico criado pelo professor que contém vínculos ('links') com outras páginas e sites selecionados e avaliados pelo professor e que são adequados aos objetivos de aprendizagem.
De início, a reação dos alunos foi de quase rejeição ao projeto, por não se sentirem preparados para produzir uma tecnologia eletrônica.
A turma se dividiu em duplas, formadas espontaneamente, e cada uma delas escolheu uma tecnologia educacional a ser pesquisada para servir de tema da "home page" instrucional, de modo a respeitar sua rede de conhecimento (Alves e Garcia, 2000). Foi a seguinte a distribuição das tecnologias selecionadas:
| Tecnologia Educacional | Quantidade |
| Álbum seriado | 1 |
| Blocos lógicos | 2 |
| Computador |
2 |
| Fantoche |
1 |
| História em quadrinhos |
1 |
| Jornal |
2 |
| Livro didático |
3 |
| Mural |
1 |
| Sucata |
4 |
| Vídeo |
1 |
| Total |
18 |
As aulas seguintes foram realizadas no laboratório de informática da faculdade. Como o laboratório não comportava toda a turma de uma só vez, ela foi dividida em duas. A metade das duplas trabalhou das 19:00 às 20:20 h e a outra metade das 20:20 às 21:40 h.
Na primeira aula de laboratório, que durou apenas o segundo período de trabalho, foram convidadas apenas as alunas que ainda tinham dúvidas sobre o uso do programa Word. Elas tiveram a oportunidade de praticar diversas funções do programa e esclarecer suas dúvidas.
Algumas ferramentas de busca como www.google.com.br, www.cade.com.br, www.miner.com.br, www.altavista.com.br, www.educk.com.br foram utilizadas durante a segunda aula de laboratório para coleta de informações sobre as tecnologias de interesse das duplas. Dessa maneira criou-se a oportunidade de desenvolver ou aperfeiçoar habilidades de pesquisa na rede e de iniciar a pesquisa teórica sobre o conteúdo das "home pages" instrucionais.
A explicação passo-a-passo sobre os procedimentos para selecionar e copiar fundos e imagens da Internet foi o assunto da aula seguinte e possibilitou que as alunas unissem as habilidades de busca na rede com as de identificação e cópia de material para suas páginas.
Na aula da semana seguinte aprender o programa Netscape Composer não foi uma tarefa complexa, uma vez que todos dominavam as funções básicas do programa Word e algumas funções são semelhantes nos dois programas. Além da explicação de cada comando básico para construção da página, foi dados às alunas um roteiro de atividade que solicitava a prática dos diversos comandos. Não houve nesse momento preocupação em relacionar a aprendizagem do programa com a construção final da "home page" instrucional.
A aula da semana posterior deu oportunidade para revisão dos comandos básicos do Netscape Composer e criação de vínculos. As alunas aprenderam a criar vínculos a partir de texto e de imagem.
A essa altura do curso os alunos já possuíam as habilidades necessárias para a construção das suas páginas. Durante as semanas de aprendizagem no laboratório em que cada dupla trabalhou no computador metade do período de cada dia de aula, a outra metade foi utilizada para visitas à biblioteca para realização da pesquisa sobre a tecnologia educacional escolhida, ou para trabalho na sala de aula para debate e organização do conteúdo pesquisado.
A última aula no laboratório foi dedicada à construção propriamente dita da "home page" instrucional. Cada dupla teve oportunidade de usar o computador durante um período inteiro de aula (das 19 às 21:40 h). Algumas duplas precisaram de um tempo extra, que foi utilizado fora do horário de aula.
A apresentação oral das páginas foi feita nas duas aulas seguintes e as duplas foram avaliadas de acordo com os seguintes critérios: informações sobre a TE (conceito, revisão bibliográfica, características comunicacionais e pedagógicas, duas experiências práticas) e análise crítica; dois formatos de fontes diferentes; duas cores diferentes de fonte; fundo; uma linha horizontal; um "clipart"; dois vínculos (texto e imagem); apresentação oral clara e com domínio do conteúdo, programa e equipamento; "home page" atraente/bonita; "home page" com organização instrucional; cópia em disquete e duas cópias impressas da "home page" entregues à professora antes da apresentação.
Cada apresentação durou de 10 a 15 minutos e foi seguida de comentário da professora e da turma.
Para fechamento do curso foi pedido que cada aluna escrevesse um breve comentário avaliativo do mesmo, registrando suas impressões e reação em relação aos textos estudados, conteúdos abordados e atividades realizadas.
Evidências do sucesso
Embora inicialmente tenha havido certa resistência por parte das alunas em relação à construção da "home page" instrucional, a reação geral do meio para o final do processo foi altamente positiva como registrou Daniela Araujo: " Indo para o laboratório vimos que não era tão complicado assim, e a turma aprendeu mais. A minha dupla por exemplo preferiu a aula no laboratório, até porque passamos da teoria para a prática e chegamos até a pensar que não iríamos chegar ao término do trabalho. Talvez não tenhamos sido as únicas a pensar assim, foi um ato diferente também do professor."
"Nunca tinha trabalhado nem ouvido falar no programa '"etscape" e tive bastante dificuldade para a execução do trabalho, porém quando vi o resultado fiquei muito satisfeita e contente." (Patrícia Pires)
A motivação das alunas em relação ao programa foi manifestado por Mônica Ferraro: " A realização da minha "home page" foi um sucesso, ficou bastante criativa, teve uma boa apresentação visual e com um conteúdo que pode ser explorado por diversas idades."
Algumas tecnologias como os blocos lógicos, computador, jornal, livro didático e sucata foram trabalhados por mais de uma dupla, uma vez que não houve interferência da professora na escolha das tecnologias. Essa recorrência contribuiu positivamente para o enriquecimento dos trabalhos, pois como registrou Mônica Ferraro:" Os assuntos trabalhados em tecnologia educacional neste período foram super interessantes, pois com estas aulas sobre "home page" todos nós observamos várias maneiras de utilizar as tecnologias educacionais, até mesmo sendo a mesma tecnologia, como foi o caso do jornal, tivemos maneiras distintas de se trabalhar."
Para não estender além do necessário, cabe registrar a opinião de Marluce Santos: "Fiquei encantada com os trabalhos apresentados, pois foi possível que todas nós notássemos o quanto é possível inserir e utilizar o computador como ferramenta de auxílio da prática pedagógica."
Mesmo tendo sido considerada uma experiência de sucesso a construção da "home page" instrucional no Curso de Pedagogia, seria enganoso deixar de registrar que tivemos que enfrentar algumas dificuldades com os alunos, com o uso dos laboratórios e com o processo de construção do conhecimento específico. Mas no balanço geral, certamente, a experiência conseguiu ser inovadora, contextualizada, coerente com a proposta pedagógica da instituição e uma etapa significativa no processo de alfabetização tecnológica desses futuros professores, respeitando a bagagem teórica e experencial que cada aluno trouxe para a sala de aula. Essa constatação se evidencia à medida que as alunos construíram conhecimento teórico sobre diferentes tecnologias e conhecimento prático sobre a tecnologia eletrônica "home page", cujo conteúdo eram informações sobre uma dada tecnologia educacional. Um acréscimo positivo a esta experiência encontra- se no fato de além do conteúdo da "home page" estar diretamente relacionado ao conteúdo da disciplina ela precisava também ser instrucional, ou seja, passível de ser utilizada no processo de construção do conhecimento desenvolvido em práticas pedagógicas consonantes com o mundo atual.
Enfim, diante da qualidade dos trabalhos apresentados que continham excelente conteúdo, primorosa apresentação gráfica e correção no uso do programa de construção de "home page", ficou evidenciado o esforço dos alunos e também do professor em persistir na realização das atividades em direção ao propósito de concretização desse projeto. Os alunos também se sentiram assim, conforme depoimento de Flávia Freitas: " Valeu todo aquele nervosismo porque o superamos e mostramos para todos que somos capazes de fazer qualquer coisa que nos é colocado. Basta termos força de vontade para aprender." E é por isso também que essa experiência foi bem sucedida.
Referências Bibliográficas
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Alves, Nilda e Garcia, Regina L. (orgs.) O Sentido da Escola. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. |
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Prefeitura de Petrópolis - http://www.petropolis.rj.gov.br |
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Sampaio, M. Leite, L. Alfabetização tecnológica do professor. Petrópolis: Vozes, 1999. |
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Sevcenko, Nicolau. A corrida para o século Xxi: no loop da montanha russa.SP: Companhia das Letras, 2001 |
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Universidade Católica de Petrópolis - http://www.ucp.br |
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Educação a Distância: o desafio continua (Lígia Silva Leite) |
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