Conect@ - número 4 - fevereiro/2002


O enigma do livre arbítrio
Colagem e montagem filosófica

Josef Mikovec
 USA

Tradução de Newton Ramos de Oliveira 
Prof. da Unesp/Araraquara e pesquisador do CNPq
Artigo gentilmente encaminhado por
Raquel de Almeida Moraes 
UnB - Faculdade de Educação



1) Se o determinismo é verdadeiro nós não podemos agir ao contrário, portanto nós não somos livres.

2) Se o indeterminismo é verdadeiro nossas ações não têm causa e acontecem ao acaso, mas se não somos os autores dessas ações, então nós não somos livres.

3) Tanto o determinismo quanto o indeterminismo são verdadeiros.

Portanto, nós nunca agimos livremente.

Se minhas ações estão no controle do meu arbítrio e meu arbítrio está sob controle do eu-profundo, eu sou livre. Mas aqui existem problemas: a) há causas externas do eu-profundo como as biológicas, físicas, educacionais, ou de manipulação, de lavagem cerebral etc.; b) identidade e relação entre consciência e eu-profundo; c) nós podemos querer mas não podemos querer querer ad-infinitum. Só se o eu-profundo estiver fora de qualquer influência pode-se ser livre, mas neste caso o arbítrio não estará sob controle do eu-profundo; d) livre arbítiro não significa liberdade de vontade, porque há necessidade de escolher entre determinadas possibilidades mas nunca possibilidades e possibilidades de possibilidades. 

Se o eu-profundo é livre do contexto social e como que transcende a superfície da realidade provavelmente ele não é capaz de compreender este contexto e reagir adequadamente, se é que até mesmo reage. Sua autodeterminação e autonomia significam solidão ontológica, insociabilidade e, pelo menos, não liberdade.

Necessidade e necessidade para escolher são os últimos desafios da liberdade e do livre arbítrio. Nós sabemos que certamente nosso livre arbítrio é limitado e às vezes nós não agimos livremente. Mas nós não sabemos se ser livres em tudo é nossa premissa ou axioma. A questão do livre arbítrio é só parte da pergunta mais geral sobre o determinismo e indeterminismo, necessidade e escolha. O universo existe necessariamente ou por casualidade? Se necessariamente há necessidade absoluta ou necessidade coincidente? Se por casualidade é necessariamente por casualidade ou coincidentemente por casualidade? Se há causa qual é a causa da causa ou falta de causa? Em outras palavras: o acaso é necessariamente coincidente ou a necessidade é coincidentemente coincidente? Nós desabamos num moinho infernal de contradições indefinidas e perguntamos pela razão suficiente final.

Na física moderna há teorias do indeterminismo (the multiple universe model - o modelo múltiplo universal - the hidden variable - a variável oculta - cosmic glue - gosma cósmica), que não podem escapar do último "por que?". E no caso do livre arbítrio no the multiple universe model, se há algum princípio geral guiando, então não há nenhum livre arbítrio. Então, se não houver nenhum princípio livre, a coincidência que cada um desses universos cria a necessidade. Por exemplo, se eu for livre para escrever este artigo em um universo, eu não posso ser livre para escrever este ensaio em outros.

De acordo com cosmic glue , a consciência está em todos os lugares a todo o tempo. Nós experimentamos aqui e agora porque nós fomos treinados ou fizeram lavagem cerebral em nosso cérebro nesse sentido. Nessa teoria acontecem as mesmas contradições e problemas que na teoria do eu-profundo: falta de motivação para escolha e impossibilidade da nossa consciência pelo limite da lavagem cerebral, treinamento etc. 

Penso que, como nenhum caminho conduz do indivíduo à totalidade e/ou incluindo a substância final, nós não podemos conhecer nosso lugar nesta totalidade, então, nós não podemos ter resposta racional à pergunta da existência do livre arbítrio de algum último ser, ficando essa questão sem qualquer resposta. Este último ser absolutamente necessariamente existe, não tem liberdade de não existir ou mudar a forma de sua existência.

A existência do último ser suporta muitos problemas: problemas lógicos de predestinação; poder absoluto, ilimitação deste ser que é igual ao nada absoluto (filosofia patrística oriental, pseudo-Dionisius, Mister Eckhart, J. S. Eriugena). Mas se a totalidade da realidade não é absoluta, é exatamente como perpertuum mobile e multiplicidade limitada de elementos que se faz só para uma multidão limitada de variações i.e. repetições infinitas eternas, determinismo absoluto (até mesmo se é verdade o assim chamado efeito "borboleta"), sem razão suficiente. Há a questão de como pode agir e ter objetivo; como pode agir livremente; como podem os seres particulares serem parte disto mesmo na forma de substâncias ou idéias preexistentes. Estas substâncias ou idéias podem tornar-se completamente real: 

a) por si só o que é absurdo;

b) emanar da deidade como necessidade;

c) ou ser estabelecido ou criado, o que significa que a substância absoluta é ilimitada mas diferenciada de modo personalizado.

Na filosofia ocidental, a ontologia de Deus consiste só na substância de Deus. O significado desta interpretação parte da suposição do princípio ontológico de que Deus não é encontrado na pessoa, mas na substância do ser em si mesmo (como disse antes). Para a filosofia ontológica patrística o princípio ontológico ou a causa do ser consiste não numa substância, mas na hipóstase que está na pessoa ou pessoalidade. Para ambas as teorias há o problema de como este ser final pode ser absoluto, indiferenciado, tudo e nada e concretamente uma pessoa única ou pessoas únicas. Aqui nós podemos ser parcialmente livres somente mediante a participação nesta deidade, como nós experimentamos esta participação e podemos verificar isso. O problema é similar aos problemas do eu-profundo. Neste conceito a liberdade não é determinada através da escolha (é isto liberdade?), mas pelo movimento de afirmação constante e situada diferentemente do que nós chamamos de liberdade moral. A possibilidade de escolha que define a liberdade moral surge da individualização do ser e é compreendida como limitação de liberdade porque descansa em possibilidades que são determinadas e, por conseguinte, constrangedoras. Colocar o ser pessoal absoluto (Deus) sobre o nível da vontade ou sobre a afirmação ou negação está acima das limitações inerentes na escolha e no determinado. A Deidade é verdadeiramente livre porque não é confrontada com nada determinado antes de existir.

Então, é melhor que ELE exista acima de todas as afirmações e negações. Isto não é compreendido como moral mas como uma liberdade humana ontológica. Caso constrário, nossa ação é somente o resultado de necessidade férrea por causas internas e/ou externas.

a) Interessante é efeito psicológico estudado pela escola psicológica Gestalt.

b) A deidade não pode ser nenhuma realidade separada distante como no Augustianismo, Tomismo, Protestantismo, mas não pode ser totalmente panteísta ou monista, porque o panteísmo e o monismo sempre significam determinismo.

c) A deidade absoluta e a pessoa humana são interconectadas e interdependentes (veja Angelius Silesius) - mas o problema cresce.

A liberdade também pode ser entendida como:

1) controle de objetos;

2) escolha pelos consumidores (no sentido amplo, não somente o econômico);

3) caminho de troca do objeto para mais auto-motivação e independência no sentido do prazer e dor;

4) demarcação da realidade.

5) organização da sociedade totalmente compatível com o modo autônomo da ação social oposta a individual até ao alienado determinado aprioristicamente determinado, totalizando sistemas integrais de determinação e controle.

Se Hegel tem razão e a história da filosofia também é filosofia também, o escrito abaixo deve ser significativo:

Forma, freqüência e importância contemporânea de perguntas e respostas sobre o livre arbítrio e determinação e:

a) sua relação com a realidade histórica; b) papel da regulação racional; c) denominação comum; d) estímulo para a internalização das coerções e aumento da complexidade e complementaridade; e) formas de identificação social, projeção, confluência, e símbolos; f) o modo no qual a autoridade impessoal poderia ser constituída; g) regulação da direção do poder; h) e sistema de valores e APELOS, e todas as relações sociais; i) conflitos e antagonismo.

Se as relações sociais são compreendidas como totalidades governadas como um todo por um único princípio ou como consistindo em um jogo definido de relações com múltiplas causalidades onde cada elemento é reduzido a um momento daquela totalidade - toda identificação é relacional e todas as relações têm um caráter necessário (sua relatividade é precisamente a prova da sua necessidade).

O ponto é que todos os valores são valores de oposição e só são definidos pela sua diferença, ao contrário da complementaridade e sincronicidade. 

Parece-me que a pergunta do livre arbítrio é complicada e eu não posso imaginar todos os aspectos que têm que ser descritos.

Nós não podemos saber com certeza se, onde, quando, e como nós somos livres e quando é ilusão, mas nós devemos agir e a sociedade pode existir como se o livre arbítrio existisse."

Se a realidade que aparece a nós é só mistificação, por que não tratá-la como realidade "? (Provavelmente, Karl Marx ¾ se não o for, então deve ser só JM).