Conect@ - número 4 - fevereiro/2002


O discurso construído nas listas de discussão:
Uma nova forma de interação na formação da subjetividade

Juliana Gervason Defilippo
Graduanda do 5º período
do curso de Letras - UFJF
 Bolsista de IC PROBIC/FAPEMIG/UFJF

Olívia Paiva Fernandes
Graduanda do 5º período
do curso de Pedagogia - UFJF
Bolsista de IC PIBIC/CNPq/UFJF

Patrícia Vale da Cunha
Graduanda do 7º período
do curso de Pedagogia - UFJF
Bolsista de IC CNPq/UFJF



Este trabalho foi produzido no âmbito da pesquisa:
"A produção/construção da escrita na Internet e na escola: uma abordagem sócio-cultural". 

Projeto que tem como orientadora a Profª Drª Maria Teresa de Assunção Freitas
e é financiado/apoiado pelo CNPq.
O artigo foi produzido durante o período de observação participante,
que consistiu na imersão das três pesquisadoras,
em especial, em 12 listas de discussão, durante três meses.
Clique aqui para maiores informações sobre o projeto e o grupo.

 

Analisamos a escrita dos internautas nos e-mails das listas de discussão, do sistema egroups, relacionadas a seriados americanos, veiculados em televisão por assinatura, a saber: friendsblvd@egroups.com e thecharmedones@egroups.com. Através da temática dos enunciados aí produzidos pudemos perceber a grande influência da sociedade de consumo e das novas tecnologias na formação subjetiva destes adolescentes.

 

A ESFERA SOCIAL

Percorrendo os conceitos de capitalismo, globalização e sociedade de consumo, compreendemos os aspectos que envolvem a esfera digital e, fazendo uma analogia com o surgimento da televisão, pudemos perceber um redirecionamento e uma manutenção de poder. Assim compreende-se melhor a presença maciça da cultura econômica particularmente no contexto dos e-mails observados.

Temos visto o surgimento de diversos temas de discussão que vêm ganhando papel relevante na concepção que o homem moderno elabora sobre si mesmo, o que nos leva à questão da identidade. São agora os apelos impostos pela sociedade de consumo, disseminados pelos meios de comunicação, que vão originar uma nova identidade do ser humano pautada nos valores por ela esteriotipados. Em decorrência das transformações imputadas percebemos a falta de espaço para a formação das singularidades e da individualidade que se minimizam à unidades reguláveis e homogêneas. Para melhor traçar nosso paralelo entre sociedade de consumo e idade de transição, como fatores importantes na formação de nossos interlocutores, usamos a teoria de desenvolvimento de L. S. Vygotsky como principal referencial teórico.

É dentro deste panorama que lançamos nosso olhar para os adolescentes cadastrados nas listas de discussão investigadas e também é assim que se justifica esta breve análise do contexto histórico-social-cultural da contemporaneidade.

 

A TELA INTERATIVA NAS "LISTA DE INTERAÇÃO"

Temos de considerar em primeira instância o caráter dialógico que a linguagem assume para Bakhtin, e neste sentido, a relevância da existência do "outro" para que a interação entre interlocutores, princípio fundador da linguagem, se dê efetivamente. Portanto, não podemos deixar de focalizar a questão da alteridade, que nas palavras de Barros, "define o ser humano, a medida em que se torna impossível pensar o homem fora das relações sociais que o ligam a este outro" (BARROS, 1996, p.26) Trataremos portanto, de um novo tipo de relação social, aquela que está se dando a partir de um novo suporte, e assumindo diversas nuances. Mais especificamente, as listas de discussão, se constituem apenas como uma única interface desta enorme gama de possibilidades comunicacionais que a Internet oferece-nos atualmente.

Participando de uma lista de discussão, percebemos que a interação ali desenvolvida se dá de forma triádica pois envolve o indivíduo interagente, a máquina e o outro (MARQUES, 1999) que se pluraliza de acordo com o número de cadastrados no endereço eletrônico. De posse do material coletado nas duas listas de discussão pudemos observar características bem distintas em cada uma delas. Por isso optamos por analisá-las separadamente. Primeiramente, focalizaremos a lista que se intitula thecharmedones, por apresentar características discursivas que predetermina o gênero do debate regrado. Assim, podemos perceber que as características enunciativas desta lista estão marcadas por relações de poder entre o owner e os demais cadastrados.

Afirmamos anteriormente, a importância que o "outro" desempenha na esfera de comunicação verbal. Enquanto interlocutores, os sujeitos estão sempre buscando interpretar ou compreender outros sujeitos, assumindo assim uma atitude responsiva ativa, portanto, toda compreensão é, assim como a linguagem, dialógica, pois os interlocutores se constituem e onstróem simultaneamente sentidos. Segundo Barros, "as construções são individuais, mas estão elas assentadas no que Bakhtin denomina de horizonte ideológico", (BARROS,1996, p.32) que abarca relações com discursos prévios e com o contexto sócio-histórico-cultural em que se vive. No exemplo a seguir podemos entrever a atitude responsiva ativa da interlocutora/owner para com um interlocutor/cadastrado. Além disso é visível também as relações interlocutórias com base em discursos prévios, como no e-mail enviado pela owner:

Ai que saco, eu odeio ter que fazer isso, mas... :o( Esse tipo de news se encaixa melhor numa lista de seriados, a minha por exemplo, mas não em uma de Charmed. Desculpa Bruno , eu não quero que você pense que eu estou pegando no seu pé porque eu não estou, eu juro, não estou mesmo, mas vamos manter o off-topic um pouco longe daqui. Ok?!? Se você quiser eu te dou o endereço da minha lista de séries, assim você pode postar essas news lá com o maior prazer, mas aqui é uma lista exclusiva de Charmed, vamos deixar assim, tá bom?!? :o) 

Já sabemos portanto, que, toda expressão linguística, seja ela oral ou escrita, está sempre visando interlocutores, ou seja, é orientada por eles, e neste sentido, temos a nítida visão do caráter não só dialógico, mas também sociológico da linguagem. Re-utilizaremos aqui o exemplo anterior para demonstrar esse caráter sociológico da linguagem quando a interlocutora/owner orienta seu enunciado demonstrando sua qualidade de criadora da lista.

Assim sendo, temos ainda neste exemplo, uma orientação de enunciação que se dá de acordo com a sócio-hierarquia do auditório social. Portanto, a owner orienta seu enunciado na intenção de evidenciar sua liderança em relação aos outros participantes da lista. Simultaneamente, podemos evidenciar o posicionamento de outros participantes da lista para com a moderadora, num aspecto submisso, que se constitui como uma mescla de respeito com medo de ser repreendido.

Falando nisso,, pois eu não vj charmed desde o início, (alias vj em epocas hehe mas isso não vem ao caso.. mas eu sempre quando leio resumos de episodios etc, falam que no primeiro episodio a Phoebe acha o Book of Shadows e ela le la o feitico que libera os poderes dela, certo?? Então sei la, eu lendo isso da a impressao que elas não eram bruxas antes e nem sabiam da existencia disso,?? Desculpe se estiver falando alguma besteira, hehe mas to usando desculpa o que a Maria disse uma vez p/ perguntar o que quiser sobre charmed :)

Temos aqui uma situação que reproduz um aspecto presente também na escola: a orientação de temas. E ainda podemos fazer uma analogia com a escolarização que na instituição escolar é necessária para que objetivos possam ser atingidos. Assim, surge também a necessidade de programas das disciplinas e objetivos, metas a serem cumpridas. Do mesmo jeito, o direcionamento de mensagens numa lista de discussão também é necessário para que a finalidade que deu origem ao newsgroups não fique perdida. O que cria ainda uma relação, já percebida por Bakhtin , de discurso duplamente orientado, onde a fala é dirigida tanto para os outros participantes da lista (o objeto referencial da fala) quanto para o discurso do "outro" (o owner que centraliza a temática).

Contudo, o fundamental para se perceber na interação ocorrida no contexto de uma lista de discussão perpassa a questão da relação triádica citada anteriormente, do poder que o owner pode exercer ou não sobre os outros integrantes da lista e vai centrar-se em um ponto relevante para a constituição da subjetividade: os interesses na idade de transição e a possibilidade da interação ocorrida nas listas de discussão estar contribuindo para a formação subjetiva destes adolescente.

A adolescência é a etapa do desenvolvimento que finaliza a infância e consolida criações novas. Um momento em que o corpo se transforma; os interesses, as formas de compreender o mundo, e as relações estabelecidas com os adultos são modificadas. É um momento que mescla a evolução biológica com o desenvolvimento histórico-cultural. Nesta fase da vida, são os interesses, a força motora do comportamento, e nesse sentido, tal etapa é caracterizada por uma ruptura com os antigos interesses e o desenvolvimento de outros, com base na maturação e formação de determinadas atrações vitais. (FREITAS, 2001).

De acordo com nosso contexto histórico-cultural, buscamos questionar os resultados das experiências vividas por estes adolescentes, enquanto constituidoras de subjetividades.

Percebendo que, atualmente, a leitura e a escrita não estão limitadas a livros e folhas de papel com traçados de lápis e caneta, (FREITAS, 2001) estamos, com esta pesquisa, compreendendo a Internet, e mais especificamente, as listas de discussão, como instância produtora de linguagem, e neste sentido, um meio interativo e construtor de significados inseridos na contemporaneidade.

Vamos buscar neste momento do texto, os atuais interesses dos adolescentes com base em nossos achados. Interesses estes que são produto da imersão numa sociedade baseada na tecnologia, no consumo, no culto ao corpo, na informação, e também na ausências de referenciais paradigmáticos para o ser humano, enfim, produto da chamada sociedade pós-moderna.

Ao analisarmos todos os artefatos, observamos a freqüência com que determinados temas surgiam. Embora a tônica das listas seja seriados americanos, aparecem temas secundários que envolvem a temática principal. Cinema, música, afetividade e preocupação com a estética são os mais relevantes aspectos que vimos emergir das interlocuções entre os integrantes desses newsgroups.

Os adolescentes demonstram interesse e trocam opiniões sobre os temas citados, os assuntos são iniciados voltando-se para a temática do seriado, chegando até mesmo à vida particular de cada participante.

É verdade...

Gente, eu tô apaixonada ainda!!! Hoje ele passou por mim e, pra variar um pouco, me deixou nua de novo na frente das minhas amigas!...pq ele não me agarra??? (...)

Bom eu vou passar a parar de comer maionese e manteiga e de comer entre as refeições p/ ver se eu fico com um corpo malhado igual ao da Jen!! (...)

... Eu tb não como maionese, nem manteiga, e muito menos como entre as refeições, e continuo no meu peso, sem emagrecer nadinha... (...) Fragmentos de e-mails retirados da lista de discussão friendsblvd@egroups.com.)

É possível perceber o interesse dos adolescentes das listas pela vida dos atores e a influência que isso exerce no cotidiano desses internautas. Almejam adquir objetos usados pelos artistas, querem saber sobre costumes dos mesmos, enfim, uma busca infinita na direção do mundo dos ídolos. Para realizar tal tarefa, mostram-se bastante prestativos, pois sempre que surgem pedidos de materiais ou dúvidas sobre o seriado os e-mails em resposta são tão rápidos quanto as trocas de mensagens nessa esfera comunicacional.

Alguém sabe qual é o modelo de óculos que o Matt tá usando!!?? Uau, qu óculos demais... Quero um... Um coca-cola pra quem adivinhar ou souber de um modelo igual... 

Em resposta, alguns minutos depois, é enviado o seguinte e-mail:

Olha, não sei de um modelo igual, mas o George Michael (que, como sabe, é meu cantor favorito) usou um "parecido" num show... eles óculos estão na moda entre os artistas (sei que George é diferente, mas existem diversas cores, tanto em relação às lentes quanto à armação). Estou enviando uma foto (pequena, não me matem)do George com os óculos dele... talvez eles tenham comprado na mesma loja, né? Se quiser o nome da loja, eu te passo(preciso procurar aqui na minha bagunça dos e-mails)... talvez eles tenham comprado na mesma. Ganho uma Coca-Cola? Se puder trocar, eu prefiro Sprite. ;o)

Na troca dos e-mails, nesse processo de interlocução, percebemos algo de extrema importância: o papel formador desse ambiente. Compreendendo a dinâmica das relações sociais e a influência na construção de uma personalidade individual, ressaltamos a formação da subjetividade do adolescente, pautados na temática desenvolvida por eles nas listas. Segundo Vygotsky, "a conduta do indivíduo é idêntica a conduta social". Portanto, o indivíduo é aquilo que o meio social o faz ser. Os adolescentes das listas se interessam pelos assuntos já explicitados e dialogam sobre as questões colocadas. É assim que podemos vislumbrar o nascimento de novos interesses que contribuirão para sua formação subjetiva.

Compreender, então, as listas de discussão como instância produtora de linguagem e portanto, formadora de subjetividade, requer considerar o ser humano como um todo inacabado que se constitui através de suas relações sociais. Decorre daí a importância do "outro" na formação subjetiva do ser humano. O excedente de visão que o outro tem a nosso respeito nos é inacessível, o que nos leva a buscá-lo juntamente com nossa completude. É na busca da totalidade perdida que a linguagem emerge como mediadora e ainda, como produto final da subjetividade onde o que se dá no plano interindividual se torna intraindividual (Geraldi, 2000).

Através de nossas contrapalavras vamos dando origem a mediações próprias do que foi aprendido. Podemos observar as contrapalavras colocadas nas listas de discussão como formadoras e criadoras de mais interlocuções, já que estamos falando também de correntes enunciativas.

Sabemos ainda que a linguagem, enquanto mediadora sígnica, não se identifica como um sistema acabado, livre de qualquer mutação. Nesse sentido temos visto na escrita dos internautas novas caracterizações, e, até mesmo, novos códigos que estão surgindo à partir de um novo meio interativo. Difícil é portanto defini-lo, já que apresenta-se como um híbrido que carrega consigo características da conversação, abreviações e ao mesmo tempo se dá à partir da escrita. Poderíamos então pensar em um gênero terciário que estaria englobando os gêneros primários e secundários definidos por Bakhtin (1952). 

Além disso podemos notar a entonação que é buscada através de determinados recursos escritos. É, portanto, neste movimento intenso da língua em transformação e das situações enunciativas que a consciência do sujeito vai se constituindo, o que nos leva a crer também no seu inacabamento. Cada ser constrói sua consciência a partir do que experiencia, o que faz com que sejamos seres únicos e ao mesmo tempo indeterminados, quando não podemos afirmar categoricamente "se algo fala de nós ou por nós" (Geraldi, 2000). 

Com isso, pretendemos demonstrar a relevância das interações ocorridas nas listas de discussão. Nesse espaço, assim como na escola e no cotidiano, estes adolescentes estão internalizando palavras de outros, tornando intraindividual o interindividual, enfim se constituindo enquanto sujeitos, e da melhor forma possível: de acordo com seus interesses. Pudemos observar que a partir de seus ídolos e das histórias que ocorrem nos seriados que deram origem às listas, os adolescentes têm trocados experiências individuais, e às vezes usando os integrantes da lista como interlocutores ideais para ouvir experiências pessoais.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Depois de apresentarmos as listas de discussão como instância de produção de linguagem e, portanto, construtora de subjetividade, cabe-nos questionar sobre o acesso a este novo meio. Em nosso atual contexto, com a popularização da internet grátis, temos visto um número maior de pessoas tendo acesso à rede. No entanto esse serviço é suficiente para proporcionar igualdade de oportunidades para todos?

É notável que nas listas de discussão, nos chats, e em todas os demais ambientes dessa esfera comunicacional, os adolescentes têm oportunidade de estar conectados às últimas notícias, ter acesso aos mais diversos países, interagir com todo tipo de pessoa e discutir sobre todo tipo de assunto. Foi, também, perceptível a contribuição desse novo meio de comunicação na formação desses adolescentes. Sabemos, no entanto, que o conjunto de valores, saberes e conhecimentos trazidos pela globalização, traz consigo também a exclusão (GERALDI, 2000). Enquanto uma minoria privilegiada está se formando com o auxílio da Internet, a grande maioria se encontra fadada, quando muito, ao exercício de uma leitura e escrita sem significado, e à obtenção de informações através da escola, jornais e televisões. Temos visto assim, o desenvolvimento de "um mundo amuralhado, impenetrável, para o não convidado" (GERALDI, 2000), pelo menos por enquanto.

No entanto, o fato da microinformática ter criado os "analfabytes", não é motivo para não desejá-la, mas para buscar modificar essa realidade. Talvez seja utópico pensar como Lévy em uma democratização da internet, já que o suporte informático em si, ainda é muito caro. Resta-nos através da instituição escolar proporcionar a todos o que mais se tem evidenciado entre os adolescentes internautas: o valor da leitura e escrita enquanto práticas sócio-culturais, e seu papel formador na constituição do sujeito. Cabe ao professor, ainda, proporcionar ao discente o exercício da cidadania da melhor forma possível, sem obrigá-lo a aprender o que os currículos predeterminam, mas orientando a aprendizagem de acordo com o fator mais importante na idade de transição: os interesses. É assim, que podemos minimizar diferenças, formar sujeitos únicos e livres, sem construir barreiras separatistas entre os homens (GERALDI, 2000).

 

NOTAS

Domínio americano que gerencia e-mails, a saber: www.egroups.com (voltar ao texto)

Em todo o texto optamos por substituir os nomes reais por fictícios. (voltar ao texto)

In Magda Soares (1999) (voltar ao texto)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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