Conect@ - número 4 - fevereiro/2002


MÍDIA E EDUCAÇÃO

Raquel de Almeida Moraes 

Doutora em Filosofia e História da Educação pela Unicamp.
Professora do Departamento de Planejamento e Administração da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília.
Vice-coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas da Plataforma Lattes do CNPq em Aprendizagem, Tecnologias e Educação a Distância.


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Introdução

Termos derivados da Comunicação, Mídia e Meio são geralmente confundidos pelas pessoas que não tem informação na área. Segundo o Panopticon (1), Mídia é o plural e Meio é o singular. Por exemplo: a televisão é um meio de massa, enquanto televisão, jornais, rádio, World Wide Web, etc, formam a mídia de massas. 

Meio é um tipo de canal ou comunicação entre duas pessoas ou mais. Meio de massa é quando esse tipo de comunicação envolve muitas pessoas. E quando essa comunicação é feita por um conjunto de meios, temos a mídia de massas. 

Para Kellner (2), as tecnologias da mídia e do computador estão criando profundas mudanças sociais e que exaltam ao extremo os benefícios da supervia informacional, onde se supõe que os indivíduos consigam dados e entretenimento a seu dispor, insiram-se em novas comunidades virtuais e até mesmo criem novas identidades. Contudo, ele argumenta, sua realidade enquanto integrante das mais avançadas forças de produção cria uma nova sociedade capitalista global, a qual pode reforçar as relações capitalistas de produção e hegemonia. Mas, ao mesmo tempo, contraditoriamente, essas tecnologias também contêm potencial para democratizar, humanizar e transformar as desigualdades existentes no domínio de classe, raça e gênero. Sua tese é que: 

"Como a maioria das tecnologias, estas podem ser usadas como instrumentos de domínio ou de emancipação, podem fortalecer os trabalhadores ou podem ser usadas pelo capital como poderosos instrumentos de dominação. 

Em vista disso, esse meu artigo tem o objetivo de discutir tese e assinalar alguns problemas que a educação deve superar no sentido da emancipação do uso ideológico da mídia pela classe que detém os meios de comunicação de massa. 

 

A dualidade da mídia 

De acordo com Adorno e Horkheimer (1985) (3), fundadores da Escola de Frankfrut (Teoria Crítica):

"O terreno no qual a técnica conquista seu poder sobre a sociedade é o poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade. A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada em si mesma" (1985, p. 114). 

Para essa vertente teórica, a mídia enquanto técnica está inserida na lógica da racionalidade enquanto dominação. Para eles é difícil escapar dessa racionalidade instrumental, técnica, onde os meios estão acima dos fins. Os neomarxistas, por sua vez, não são menos pessimistas. Chesneaux (1995) (4), analisando as tecnologias que compõem a mídia sob a ótica da modernidade-mundo pensa que as mesmas guardam uma estreita associação com o poder político e o lucro capitalista. 

"Reger toda a Terra..." Tal é a lógica do tecnocosmo. A Informática introduz uma linguagem mundial, uma rede mundial (ou rede de redes), um mercado mundial, normas mundiais. As fábricas de roupas Benneton, em Vêneto, se vangloriam de controlar instantânea e permanentemente a situação de seus estoques em todas as suas lojas do mundo. Os satélites espaciais varrem toda a Terra. A biologia genética é "trans-terrestre" no seu próprio princípio, contorna e desqualifica a lenta diversificação das espécies vivas, segundo o meio biogeográfico de cada uma delas. Quanto à energia termonuclear, lamenta-se que não tenha ainda "apreendido" a totalidade do planeta, senão como virtual dissuasão." (1995, p. 110).

E juntamente com o mercado, o Estado se apodera desse gerenciamento tornando-se, além de seu cúmplice, o "seu exército", que, constantemente, desde a época da II Guerra Mundial, tem sido o comandante principal da pesquisa e de suas aplicações no campo da energia nuclear, da Informática, das tecnologias espaciais e, mais secretamente, da biogenética. O átomo, o computador, os satélites, "servem antes de tudo para fazer a guerra". Tal faculdade, porém, está reservada ao clube dos ricos (1995, p. 111).

..."Servem antes de tudo para fazer a guerra". Essa tese é também defendida por Emil Vlajki (2001) (5) em seu novo livro: Demonization of Serbs (A demonização dos sérvios). Para Vlajki, a mídia é parte do totalitarismo ocidental onde se fabrica e se vende a realidade, o "consenso", a vontade de poder. E com ele, junta-se Bagdikian (1993) (6), Chomsky (1998) (7) entre outros. 

Poole (2000) (8) e Vlajki (2001) alertam para a existência de Echelon, um sistema global de espionagem criado e coordenado pelos Estados Unidos, em conjunção com os governos da Inglaterra, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Esse sistema captura e analisa virtualmente cada chamada de telefone, fax, e-mail e tele-mensagem enviada em qualquer lugar do mundo e é processada/analisada de acordo com um Echelon "Dictionary", que está na memória dos computadores que compõem o sistema. 

Apesar de Echelon ter sido criado para o controle das informações na época da Guerra Fria e agora, com o seu fim, é utilizado no combate contra o terrorismo, desconfia-se que pode estar sendo usado para outros propósitos além de sua original missão, ou seja: estariam sendo utilizados para espionagem política e comercial. 

Bagdikian vê a mídia nas mãos das corporações. Em 1995, em entrevista ao jornal brasileiro Correio Brasiliense ele afirmou: "Além de darem razão ao meu alarmismo, essas fusões confirmam ainda a tendência ao surgimento das supergigantes". O surgimento de uma Disney-ABC encoraja outras a se tornarem também gigantescas, para não serem absorvidas. Até porque o Congresso não limita o monopólio". Sua previsão era de que, até o ano 2000 "elas serão seis ou dez, trabalhando umas com as outras, com um poder extraordinário. " E já chegamos ao ano 2001, e a situação está seguindo a tendência desenhada por ele em 1995. 

Chomsky (1998) julga que a mídia fabrica o consenso. Se você, como diz Chomsky, não pode forçar as pessoas a obedecerem um regime à força (como fazia a ex União Soviética e outras ditaduras no mundo), então você lança mão de propagandas que garantam que as pessoas concordarão com a ordem que os grupos estão impondo à sociedade. 

Contudo, considerando-se o crescente aviltamento dos direitos fundamentais da humanidade quanto à liberdade, saúde, emprego e educação - entre outros - julgamos pertinente a seguinte reflexão de Marx (9):

"Chegou-se finalmente a uma época em que tudo aquilo que os homens tinham considerado como inalienável se tornou objecto de troca, de tráfico e se pode alienar. É a época em que as coisas até então eram comunicadas, mas jamais trocadas; dadas, mas jamais vendidas; adquiridas, mas jamais compradas - virtude, amor, opinião, ciência, consciência, etc - em que tudo finalmente entra no comércio. É a época da corrupção geral, da venalidade universal, ou para falar em termos de economia política, a época em que, tendo-se todas as coisas, morais ou físicas, tornado valores venais, entram no mercado para serem apreciados pelo seu mais justo valor". (1975, p. 194)

E não parece que estamos no limite histórico do capitalismo. Ao contrário, a atual fase do capitalismo globalizado está promovendo, ainda mais, o avanço da barbárie. A esse respeito, Hobsbwan (10) reflete que: 

"Os problemas de um globo que hoje pode se tornar inabitável pelo simples crescimento exponencial da produção e da poluição, pelos problemas de um mundo dividido entre uma minoria de Estados muitos ricos e uma grande maioria de Estados pobres, não podem ser resolvidos dessa maneira. Na última década do século, nem sequer parece possível que possam ser resolvidos sem a ação planejada e sistemática de governos dentro de Estados e, internacionalmente, sem atacar os redutos da economia de mercado de consumo. As coisas não se acertarão sozinhas. É isto que os socialistas lembram aos liberais. Se essa ação pública e de planejamento não for iniciada por pessoas que acreditam nos valores da liberdade, razão e civilização, será iniciada por pessoas que não acreditam nesses valores, porque terá de ser iniciada por alguém. Infelizmente, é mais provável que seja iniciada pelo fenômeno mais perigoso do nosso fin de siècle": regimes nacionalistas, xenófobos, demagógicos, direitistas, igualmente hostis ao liberalismo e ao socialismo, porque ambos representam os valores da razão, do progresso e a idade das grandes revoluções. Este é o perigo. Rosa Luxemburgo nos advertiu de que a alternativa real da história do século XX era "socialismo ou barbárie". Não temos o socialismo: acautelemo-nos contra a ascensão da barbárie, especialmente barbárie combinada com alta tecnologia. " (1995, p. 216)

Isto posto, temos certeza de que não será com a globalização bárbara e violenta, como doutrina ou ideologia político-econômica-social, que conseguiremos a promoção de uma sociedade efetivamente livre. Por trás da mídia a classe dominante capitalista, às custas de todos, inclusive dos seus concorrentes, cada vez mais concentra e centraliza o capital, aumentando a miséria e a dominação humana. 

Entretanto, dado o crescente decomprometimento da maioria dos cidadãos parece que as dificuldades atuais em superar esses antagonismos são cada vez maiores. Uma das faces do momento atual é de desesperança, de violência.

Kurz (1993) (11), por sua vez, assinala que a crise econômica mundial que estamos vivendo neste final de século gere, não se sabe quando, a superação do modo de produção capitalista. Mas isto, salienta, será o resultado de ações humanas concretas e das próprias contradições do Capital, e não do determinismo tecnológico.

Herrera (1993) (12) sinaliza que seria necessário que uma outra estratégia socioeconômica e cultural fosse implementada para superar a opressão: a valorização do ser em vez do ter; a produção compatível com os recursos finitos do meio ambiente; a distribuição equânime da riqueza; a eliminação da divisão social do trabalho; a participação e a educação. Para ele: "Com a tecnologia moderna, aparece também uma nova possibilidade: a informática. Pela primeira vez na história é possível que a população ou os organismos representantes da população possam ter realmente informação para poder decidir, começando pela base".

E ainda: " E vamos à mudança fundamental do trabalho: à medida que vão sendo transferidas habilidades às máquinas, é preciso operários cada vez menos capazes. Mas há outra solução. É eliminar a divisão social do trabalho. O que quer dizer isso: se toda a Humanidade trabalhar um tempo relativamente breve - estou falando de um futuro não muito longínquo, de um futuro para o qual estamos indo agora - , pode produzir todo o que é necessário. Esse trabalho social necessário poderia ser feito por toda a população, em curta jornada, eliminando-se, pois, essa divisão social do trabalho. " (...) "Gostaria de reiterar, finalmente, que não podemos predizer qual será o impacto dessa tecnologia - a Informática - porque esse será um impacto determinado por nós mesmos. Quer dizer, esse impacto tem de ser construído, porque depende, fundamentalmente, da estratégia socioeconômica e cultural na qual esteja incorporado. De maneira que se trata de um desafio" (1993, 21).

Esse argumento é também reforçado pelo filósofo Janine Ribeiro (2000) (13) para quem "é esse o diferencial que a Internet pode trazer à democracia. Ela pode permitir um sem-fim de acessos, de contatos, de trocas". 

Ilan Gur-Ze'ev (2000) (14), analisa que apesar do Ciberespaço ser uma máquina de prazer pós-moderna que visa à reprodução da dominação capitalista em sua fase globalizada e auto-controlada, há ainda a possibilidade do imprevisível e do incontrolável . Essa possibilidade faz com que os sujeitos ressuscitem o que é esquecido ou desconstruído na Rede: o eros, a reflexão, a transcendência e a ética em um diálogo historicamente situado. Para ele: 

"O diálogo é o campo em que a luta pela reflexão como possibilidade aberta pode acontecer. Dentro dele, a alteridade do Outro - "interno" ou "externo" - como uma reflexão do infinito e abertura ao ser permite a realização da transcendência no exato momento. A Utopia negativa como uma busca positiva combate em circunstâncias concretas e abre a possibilidade de um momento especial de intersubjetividade não-violenta. Essa intersubjetividade não-violenta envolve reconhecer a diferença, a diferença total e, portanto, é um combate, não uma celebração de machos brancos, racionais e de classes dominantes como é usualmente concebida no Esclarecimento tradicional. Eis porque a contra-educação só pode atuar dentro dos horizontes de um diálogo". (2000). 

Contudo, ele adverte que a realização do Espírito crítico não está garantida, dado que o "sujeito assim como o diálogo não são hoje mais do que uma Utopia". 

Em vista disso, a relação entre a Educação, Sociedade Tecnológica e Mídia está no limite do atentado contra a existência do ser humano enquanto sujeito, um ser com dor, sentimentos, paixões e eros, como nos diz Ilan Gur-Ze'ev. E para emancipar essa realidade da opressão capitalista (manifesta ou simbólica) a educação pode vir a ter um papel estratégico, já que na atual fase civilizatória a tecnologia apresenta-se muito sedutoramente, tal como as sereias na Odisséia que tentaram seduzir Ulisses. Felizmente para Ulisses e seu povo, elas não conseguiram. E será que nós conseguiremos emancipar? 

A utilização, por exemplo, da informática tem sido reacionária/conservadora para a grande maioria da população, tendo em vista o desemprego tecnológico e o descomprometimento dos educadores com a democracia (entre outros). A péssima remuneração dos professores, suas duvidosas formações, a deplorável qualidade do ensino nas escolas públicas do ensino fundamental e médio e a semi-alfabetização dos alunos, que inclui países como o próprio EUA, são um indício de que esse fenômeno do descomprometimento com a educação não é um fenômeno típico de antigo terceiro mundo, mas um fenômeno mundial .

Também Gramsci (1968) (15) salientava esse descomprometimento "amesquinhado" dos educadores: 

" É este o fundamento da escola elementar; que ele tenha dado todos os seus frutos, que no corpo de professores tenha existido a consciência de seu dever e do conteúdo filosófico deste dever, é um outro problema, ligado à crítica do grau de consciência civil de toda uma nação, da qual o corpo docente é tão-somente uma expressão, ainda que amesquinhada, e não certamente uma vanguarda" (1968, 131).

Contudo, não compactuo com a visão pessimista nem catastrofista de filosofia da história. Concordo com Manuel Castells (1999) (16) que: 

"O sonho do Iluminismo está a nosso alcance. Todavia, há enorme defasagem entre nosso desenvolvimento tecnológico e o subdesenvolvimento social. Nossa economia, sociedade e cultura são construídas com base em interesses, valores, instituições e sistemas de representação que, em termos gerais, limitam a criatividade coletiva, confiscam a tecnologia da informação e desviam nossa energia para o confronto auto-destrutivo. Essa situação não é definitiva. Não há mal eterno na natureza humana. Não existe nada que não possa ser mudado por ação social consciente e intencional, munida de informação e apoiada na legitimidade" . (1999, p.437)

Para Kellner (2001) (17), essa ação consciente e intencional estaria na educação. Para ele, nesse período de dramáticas mudanças tecnológicas e sociais, a educação precisa cultivar uma variedade de novos tipos de alfabetizações para tornar a educação relevante às demandas de um novo milênio. Segundo ele:

"Tenho como pressuposto que as novas tecnologias estão alterando todos aspectos de nossa sociedade e cultura e que precisamos compreendê-las e utilizá-las tanto para entender quanto para transformar nossos mundos. Meu objetivo é introduzir novas alfabetizações para dar força a indivíduos e grupos que tradicionalmente têm sido excluídos e, desse modo, reconstruir a educação tornando-a capaz de reagir melhor frente aos desafios de uma sociedade democrática e multicultural".

No entanto, a despeito da ubiqüidade da cultura midiática na sociedade contemporânea e na vida de todos os dias, ele argumenta que até agora nada se fez ou se desenvolveu a respeito da educação midiática no sistema escolar fundamental e médio. Para Kellner, fazer alfabetização crítica da mídia seria um projeto que estimularia a participação e o trabalho conjunto de pais, filhos, educadores. Ele cita como exemplo o assistir a shows de televisão ou a filmes juntos. Isso poderia promover discussões produtivas entre os assistentes, aguçando-lhes a percepção e a crítica do que está "por trás" do texto mediático. 

Para Kellner: "A alfabetização midiática, assim, envolve o desenvolvimento de concepções interpretativas e críticas. Engajar-se no levantamento e avaliação de textos midiáticos é particularmente desafiador e abarca uma discussão cuidadosa de critérios críticos especificamente morais, pedagógicos, políticos ou estéticos". 

E mais adiante: "Mas a alfabetização midiática crítica envolve ocupar uma posição acima da dicotomia de protetor e censor. Pode-se ensinar como a cultura midiática fornece afirmativas ou insights significativos sobre o mundo social, fortalecendo visões de gênero, raça e classe ou estruturas e práticas estéticas complexas, girando a um ponto positivo sobre como trazer contribuições importantes à educação. No entanto, deve-se indicar também como a cultura midiática pode estimular o sexismo, o racismo, o etnocentrismo, a homofobia e outras formas de preconceitos, numa abordagem dialética ao mostrar como a mídia pode trazer falsas informações, ideologias problemáticas e valores questionáveis".

E ao incluir a informática entre as mídias e empregar o termo "multimídia" ele assinala a necessidade de novas alfabetizações, as alfabetizações múltiplas, que iriam além do domínio técnico das mídias, mas que incluiria "o desenvolvimento de eficiências que possibilitam ao indivíduo desenvolver-se em seu ambiente concreto, aprender com a prática e ser capaz de interagir, trabalhar e ser criativo em suas próprias sociedades e culturas". 

Citando as idéias de Paulo Freire, ele argumenta que a pedagogia crítica compreende as habilidades tanto de ler a palavra quanto de ler o mundo. Por isso, as alfabetizações múltiplas incluem não apenas a mídia e a alfabetização informática, mas uma extensão diferenciada de alfabetizações sociais e culturais, que vão desde a eco-alfabetização até a alfabetização econômica e financeira e uma variedade de outras competências que nos possibilitam a viver bem em nossos mundos sociais.

Ele conclui o seu texto recorrendo à Dewey nos seguintes termos: "De maneira mais enfática, é tempo de assumir a atitude de Dewey de experimentação pragmática de ver o que as novas tecnologias podem e não podem fazer para ver se podem intensificar a educação. Mas também teremos que suplantar o exagero, mantendo uma atitude e uma pedagogia críticas enquanto continuamos a combinar a alfabetização e os conteúdos clássicos com as novas alfabetizações e conteúdos".

 

É possível superar a contradição, a fragmentação? 

Segundo a lógica dialética, seria preciso negar a negação da mídia e da multimídia na educação para se chegar a um patamar superior superando a contradição que essa relação revela. Contudo, desde os anos cinqüenta/sessenta essa lógica vem sendo questionada, primeiro por Adorno, depois pelos pós-modernistas como Lyotard, Foucault e os pós-estruturalistas como Derrida e Deleuze. 

Criticando a rigidez da meta-narrativa hegeliana senhor-escravo e exaltando a diferença ao invés da contradição, esses filósofos abriram brecha para o questionamento do poder enquanto pertencendo a sujeitos determinados, estando, ao invés, diluídos no tecido social. O poder está em tudo e em todos, até no escravo. O sujeito, por sua vez, não é mais o sujeito do Iluminismo que tem a Razão, a Ciência e a Tecnologia a seu dispor. Agora o sujeito aparece como algo fragmentado e inconsciente, oscilando entre a loucura e sanidade. Não somos mais os seres racionais cartesianos do "Penso, logo existo". Embora Marx advirta que o indivíduo não é dono de si mesmo, é alienado, ele não se aprofunda nessa constatação. 

A nosso ver, Kellner ao iniciar sua análise pela vertente marxista e concluir pelo pragmatismo de Dewey, também deixou de lado o aprofundamento dos porquês que ocorrem essas contradições ou mesmo diferenças, como advogam os pós-modernos e pós-estruturalistas. Mesmo que suas idéias sejam o bom senso, afinal, é bom senso não ser extremista (ou giz ou computador), educar para "ser capaz de interagir, trabalhar e ser criativo em suas próprias sociedades e culturas" como ele afirma, envolve a superação do ímpeto totalitário que há em todos nós, pois somos, ao mesmo tempo, e de forma fragmentada, bons e maus, verdadeiros e mentirosos, anjos e demônios. Ou seja: Como educar para emancipar numa sociedade totalitária que usa a mídia, e agora a multimída, para fabricar novos consensos e impor o totalitarismo ocidental, como diriam Chomsky e Vlajki? 

Ninguém garante que a educação voltada para desenvolver a competência da democracia irá criar o homem bom, como queriam Rousseau e Dewey na qual Kellner se apóia. Assim como ninguém garante que o contrário não ocorra. 

Finalizo esse artigo com o seguinte pensamento de Nietzsche: 

"Nós homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos...

Que é a versão contemporânea do que disse o grande filósofo da Antiguidade, Sócrates: 

"Conhece-te a ti mesmo". 

Referências Bibliográficas

1) http://carmen.artsci.washington.edu/panop/subject_M.htm#MEDIA

2) KELLNER, Douglas. Marxismo e a Supervia da Informação. Texto traduzido por Newton Ramos-de-Oliveira, Pesquisador do Grupo "Teoria Crítica e Educação", núcleo de S. Carlos (Unesp/Ufscar/CNPq). O original, em Inglês, está no site: http://www.gseis.ucla.edu/courses/ed253a/dk/MARINFO.htm 

3) ADORNO, Theodor W. & HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. RJ: Zahar Editor, 1994. 

4) CHESNEAUX, Jean. Modernidade-Mundo. Petrópolis: Ed. Vozes, 1995.

5) VLAJKI, Emil. Demonization of Serbs. Canadá: Ed. Revolt, 2001. 

6) BAGDIKIAN, Ben H. O Monopólio da Mídia. SP: Ed. Scrita, 1993. Ver: Correio Brasiliense, 03/09/1995: Dez Grupos controlarão as comunicações, p. 22.

7) MAHER, John & GROVES, Judy. Introducing Chomsky. UK: Icon Books Ltda. 1999. 

8) POOLE, Patrick. S. ECHELON: America's Secret Global Surveillance Network. http://fly.hiwaay.net/~pspoole/echres.html

9) MARX, Karl. Textos Filosóficos, Lisboa: Ed. Estampa, 1975.

10) HOBSBAWN, Eric. "A crise atual das ideologias". SADER, Emir (org.): O mundo depois da queda. RJ: Ed. Paz e Terra, 1995.

11) KURZ. Robert. O Colapso da Modernização. Da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial. RJ: Paz e Terra, 1993.

12) HERRERA, Amílcar. As Novas Tecnologias e o Processo de Transformação Mundial. Acesso. Revista de Educação e Informática. SP: FDE, dez/93. 

13) RIBEIRO, Renato Janine. As chances do Virtual para a Democracia. Hipertexto. Revista on line, 2 ª edição, março de 2000. 

14) GUR-ZE'EV, Ilan. Critical Education in Cyberspace? Australia: Educational Philosophy and Theory, Volume 32, Number 2, Issue Jul 2000 (tradução de Newton-Ramos-de Oliveira). http://www.revistaconecta.com

15) GRAMSCI, Antonio. Os Intelectuais e a Organização da Cultura. RJ: Civilização Brasileira, 1968.

16) CASTELLS, Manoel. A Sociedade em Rede. SP: Paz e Terra, 1999. 

17) KELLNER, Douglas. Novas tecnologias: novas alfabetizações.. Texto não publicado e traduzido por Newton Ramos-de-Oliveira, Pesquisador do Grupo "Teoria Crítica e Educação", núcleo de S. Carlos (Unesp/Ufscar/CNPq). 

18) NIETZSCHE, Friedrich. In: PETERS, Michael. Pós-estruturalismo e filosofia da diferença. Uma introdução. Belo Horizonte: Ed. Autêntica, 2000, p. 49. 

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