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Conect@ - número 1 - julho/2000 |
Claudia Franco Sombra ![]()
Pedagoga
Especialista em Supervisão Escolar
Pós-graduanda em Educação a Distância)
O quadro negro da educação brasileira teria sido bem pior, se não tivéssemos tido um Anísio Teixeira (1900-1971) de olho no que acontecia em nossa escola. E certamente não seria negro se mais idéias do educador baiano tivessem sido adotadas. Elas parecem tão atuais que revelam duas constatações, uma sobre Anísio e outra sobre o país.
Anísio: pensava longe, e era capaz de unir talento administrativo a uma apurada capacidade de análise. Foi um dos homens mais cultos desse país e menos exibicionista. Anísio criava teses e lutava para coloca-las em prática.
Sua luta maior era a do serviço público e as universidades, como obrigatoriedade do ensino, na formação de professores, no fortalecimento de instituições de pesquisa como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (presidiu ambas) além de participar da elaboração da Lei de Diretrizes e Bases, promulgada em 1961.
A constatação que o centenário de seu nascimento suscita sobre o país é que faltou vontade política para reverter um sistema educacional que nasceu voltado para as elites econômicas. Anísio dissecou em seus livros o caráter excludente da educação brasileira e o gargalo representado pelo Ensino Médio. "Para ele, era ali que se formava a composição da elite intelectual, pela base econômica e não pôr critérios de competência, evidenciando a fratura social do país", analisa o professor Cury, da Universidade Federal de Educação de Minas Gerais.
De 1931 a 1935, no governo do prefeito Pedro Ernesto no antigo DF, Anísio criou uma rede municipal de ensino da escola primária à Universidade. Introduziu a moderna arquitetura escolar, ampliou as matrículas, criou os serviços de extensão e aperfeiçoamento, as Escolas Técnicas Secundárias e transformou a antiga Escola Normal em Instituto de Educação. O canto-coral, a educação física e a rádio-escola também foram aspectos importantes na reforma.
Anísio defendia que a escola pública era a "máquina que prepara as democracias". Sendo assim deveria centrar-se em três eixos para formar um bom cidadão: o jogo, o trabalho e o estudo. A tradução concreta de suas idéias foi as Escolas-Parque, criadas na Bahia em 1950, quando foi Secretário de Educação pela segunda vez. Eram escolas de tempo integral, embriões dos Cieps criados por Darcy Ribeiro na década de 80 sob influência do mestre baiano.
Houve um momento histórico para a educação brasileira. E lá estava Anísio como um dos signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932.A partir da Revolução de 30, são colocados princípios que, se hoje parecem líquidos e certos, não o eram naquele tempo, logo após o enterro da República Velha. São eles: obrigatoriedade do ensino básico, gratuidade, educação para ambos os sexos. Foi a primeira vez em nossa história que a educação passou a ser vista como um problema educacional.
Veja se sua opinião não parece saída dos Parâmetros Curriculares Nacionais: "O mestre deve confiar no aluno. Perca ele para sempre a idéia de que lhe cabe qualquer soberania sobre o pensamento do seu discípulo. Dê-lhe a oportunidade para pensar e julgar por si".
Inspirado pelos princípios humanistas do filósofo norte-americano John Dewey (1859-1952), de quem foi aluno, amigo e tradutor, Anísio Teixeira trouxe para o Brasil a noção de que era preciso usar métodos ativos que ensinassem o aluno a "aprender a aprender" em um ambiente escolar democrático.
Ele dizia que "as inteligências que se ajustam ao ensino formal são as de certo tipo médio, excessivamente passivo. Os verdadeiramente capazes são desencorajados, e a grande maioria dos de outro tipos de inteligência - artística, plástica, prática - é destruída". Muito tempo antes do conceito de "Múltiplas Inteligências", Anísio já pensava desta forma, com suas várias lúcidas inteligências.
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