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Conect@ - número 2 - setembro/2000 |
PANORAMA ATUAL DA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NO BRASIL
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Preletor do Seminário Virtual: |
A aplicação de novas tecnologias na Educação a Distância (EaD), especialmente aquelas ligadas à Internet, vem modificando o panorama dentro deste campo de tal modo que, seguramente, podemos falar de uma EaD antes e depois da Internet. Antes da Internet tínhamos uma EaD que utilizava apenas tecnologias de comunicação de "um-para-muitos" (rádio, TV) ou de um-para-um (ensino por correspondência). Via Internet temos as três possibilidades de comunicação reunidas numa só mídia: "um-para-muitos", "um-para-um" e, sobretudo, "muitos-para-muitos". É esta possibilidade de interação ampla que confere a EaD via Internet um outro status e vem levando a sociedade a olhar para ela de uma maneira diferente daquela com que olha outras formas de EaD.
Durante muito tempo Educação a Distância foi considerada, para usar as palavras do filosofo francês Pierre Levy, uma espécie de "estepe" do ensino, utilizada principalmente quando outras modalidades de educação falhavam. Se o sistema educacional convencional falhava em proporcionar escolaridade mínima a uma parcela significativa da população, então a Educação a Distância era chamada para suprir esta lacuna. Com isto a sociedade se acostumou a olhar para a EaD como uma educação "de segunda categoria", a ser utilizada especialmente por aqueles que não tiveram oportunidade de uma educação "melhor", a educação presencial convencional. A linguagem e o formato dos programas de EaD através do rádio e da televisão mostravam que eles estavam dirigidos para o "andar de baixo" da sociedade, para os excluídos do sistema educacional. Educação a Distância era "coisa de pobre...".
De repente chega a Internet e os congressos e encontros de Educação a Distância lotam de gente interessada em conhecer as novas tecnologias a ela aplicada. Jornais e revistas começam a dar destaque a projetos de escolas e universidades virtuais. E isto não é um fenômeno isolado, brasileiro. Mundialmente as melhores e mais caras universidades começam a montar seus campi virtuais e a oferecer Educação a Distância via Internet.
De um lado está o "charme" e o apelo da novidade: hoje tudo o que envolve Internet chama a atenção. De outro lado, há a percepção clara de que estamos diante de uma tecnologia que permite coisas impensáveis em outras modalidades que utilizam outras tecnologias, como, por exemplo, a formação de comunidades virtuais de aprendizagem colaborativa. Isto é, comunidades compostas por pessoas que estão em diversas partes do mundo e que interagem todos com todos, sem que necessariamente estejam juntas ou conectadas, na mesma hora e no mesmo lugar - em modo assíncrono, como dizem os especialistas. Uma mensagem pode ser enviada num determinado horário para um grupo de 30 ou 40 pessoas que a lerão, cada uma num horário diferente, e a ela reagirão também cada uma no seu tempo, sustentando-se um debate por dias seguidos (tal como estamos vivenciando aqui). Via Internet pode-se experimentar aprender junto com outros, interagindo com muitos, independente do tempo e do lugar de cada um.
No mundo inteiro as instituições de ensino estão procurando se informar e acompanhar esta verdadeira revolução educacional que está acontecendo, inclusive e especialmente as mais tradicionais instituições de Educação a Distância. A chamada educação online está desafiando estas instituições a repensarem seus modelos pedagógicos ao mesmo tempo em que oferece soluções para problemas com que estas mesmas instituições vêm se confrontando cada vez mais, à medida que passamos de uma sociedade industrial para uma sociedade da informação. Hoje, a informação "envelhece" mais rapidamente. O tempo de vida dos saberes é cada vez menor. Material didático escrito e reproduzido para ser utilizado por 5 ou 10 anos torna-se obsoleto em muito menos tempo. Produzir, reproduzir e distribuir material didático para a Educação a Distância convencional é algo relativamente caro. Em geral, trata-se de investimento a ser recuperado a longo prazo. No entanto, em algumas áreas, como Informática ou Medicina, um curso por correspondência ou em vídeo que leve 1 ano para ser produzido, pode tornar-se totalmente obsoleto 2 ou 3 anos após começar a ser distribuído. Começa a ficar cada vez mais caro e cada vez mais trabalhoso fazer Educação a Distância baseada no desenvolvimento de material impresso ou em vídeo. Educação a Distância via Internet começa a ser vista (ilusoriamente, como veremos adiante) por algumas destas instituições como uma alternativa para reduzir custos ou permitir a rápida atualização de conteúdos sem os altos custos de reimpressão e distribuição do material impresso, por exemplo.
Ao mesmo tempo em que isto ocorre, percebe-se que a EaD via Internet pode ajudar a EaD em geral a superar uma de suas maiores barreiras, a da manutenção da motivação do estudante. Uma das maiores dificuldades da EaD convencional está no chamado isolamento do estudante, que não conta com o apoio e o estímulo de um grupo de pessoas que estão nas mesmas condições que ele, aprendendo as mesmas coisas e ajudando-se mutuamente a vencer dificuldades neste aprendizado, em outras palavras, uma "turma". No caso da tele-educação isto vem sendo enfrentado através da organização de grupos locais de alunos reunidos em "tele-salas", mas nem sempre é possível reunir um grupo que se encontre num mesmo lugar, na mesma hora - condição sine qua non para o funcionamento de uma "tele-sala". No caso do ensino por correspondência, tenta-se vencer esta dificuldade através do trabalho de auxiliares, os chamados "tutores", que "vão atrás" do aluno quando este passa muito tempo sem dar noticias ou sem cumprir alguma tarefa. Mas, por mais atencioso que um tutor seja é muito difícil que um apenas consiga manter o estudante motivado por muito tempo. Ora, com a Internet, pode-se organizar os alunos em turmas, tal como no ensino presencial, e isto certamente tem reflexos positivos sobre a motivação do estudante.
Na verdade, assim como a Educação a Distância convencional exigiu o desenvolvimento de uma pedagogia especifica, a educação online exige o desenvolvimento de um modelo pedagógico especifico. É a construção deste modelo que estamos hoje assistindo. Ainda há muito a se criar, experimentar e corrigir neste campo desafiador de constituição de uma pedagogia online, mas hoje há razoável consenso em torno do fato de que esta pedagogia deve estar atenta aos seguintes aspectos:
Cada vez mais se exige hoje profissionais e cidadãos capazes de trabalhar em grupo interagindo em equipes reais ou virtuais.
Cada vez mais trabalhar e aprender se tornam uma só coisa, e como trabalhar se torna cada vez mais algo que se faz em equipe, aprender trabalhando se faz cada vez mais em grupo.
Mais do que o sujeito "autônomo", "autodidata", a sociedade hoje requer um sujeito que saiba contribuir para o aprendizado do grupo de pessoas do qual ele faz parte, quer ensinando, quer mobilizando, respondendo ou perguntando. É a inteligência coletiva do grupo que se deseja pôr em funcionamento, a combinação de competências distribuídas entre seus integrantes, mais do que a genialidade de um só.
Dentro deste quadro, aprender a aprender colaborativamente é mais importante do que aprender a aprender sozinho, por conta própria. Co-laborar, mais do que simplesmente laborar.
Também dentro deste quadro, os papeis de professor e aluno se modificam profundamente. O aluno deixa de ser visto como mero receptor de informações ou assimilador de conteúdos a serem reproduzidos em testes ou exercícios. O professor deixa de ser um provedor de informações ou um organizador de atividades para a aprendizagem do aluno. Aluno e professor passam a ser companheiros de comunidade de aprendizagem, o professor com uma função de liderança, de "animação" no sentido mais literal da palavra, de despertar a "alma" da comunidade. E nisto é apoiado e acompanhado por seus alunos, que também animam-se uns aos outros, procurando todos o crescimento de todos.
Como se vê, são desafios grandes que exigem um grande esforço. Em primeiro lugar, um grande esforço para aprender a ser um aluno online. Isto não é a mesma coisa que ser um aluno convencional e também não se confunde com o aprendizado operacional de novas tecnologias. Ser um aluno online é mais do que aprender a surfar na Internet ou usar o correio eletrônico. É ser capaz de atender às demandas dos novos ambientes online de aprendizagem, é ser capaz de se perceber como parte de uma comunidade virtual de aprendizagem colaborativa e desempenhar o novo papel a ele reservado nesta comunidade.
Em segundo lugar, exige o esforço por parte do professor de tornar-se um professor online. Mais uma vez, aqui também, isto não se confunde com o aprendizado operacional de novas tecnologias. Não se trata apenas de ensinar o professor à "mexer com o computador", navegar na web ou usar o e-mail. Assim como aprender a usar quadro-negro e giz não faz de ninguém um professor convencional, aprender a usar computador, periféricos e software não faz de ninguém um professor online. Professor online precisa ser antes de tudo convertido a uma nova pedagogia. Não é apenas mais um novo meio no qual ele tem que aprender a se movimentar, mas é uma nova proposta pedagógica que ele tem que ajudar a criar com sua pratica educacional. Assumir o papel de companheiro, liderança, animador comunitário, é algo bem diferente do que tem sido sua atividade na educação convencional. Seu grande talento deverá se concentrar não apenas no domínio de um conteúdo ou de técnicas didáticas, mas na capacidade de mobilizar a comunidade de aprendizes em torno da sua própria aprendizagem, de fomentar o debate, manter o clima para a ajuda mútua, incentivar cada um a se tornar responsável pela motivação de todo o grupo.
Este novo aluno e este novo professor ainda não existem. Precisam ser criados e, depois de criados, aperfeiçoados continuamente nesta nova área de pratica educativa. Não se faz isto de um dia para o outro. É coisa que nossa sociedade vai viver por muitos anos, talvez décadas. O desafio não é pequeno: é imenso. Por isto, é preciso olhar com certa desconfiança algumas iniciativas que tratam a educação online como se fosse apenas mais uma outra maneira de se fazer Educação a Distância, ou apenas a mera transposição da velha sala de aulas para o mundo virtual. Especialmente aquelas iniciativas que pensam ser isto uma questão de se desenvolver apenas o hardware, a conectividade ou o software especializados para Educação a Distância via Internet. Muitos recursos vêm sendo investidos nestes elementos - e é realmente importante que continuem sendo investidos. Mas fazer isto não é todo o investimento necessário e nem é o mais importante investimento. O momento atual exige investimentos pesados em peopleware. Isto é, em recursos humanos para a educação online. Nosso país ocupa posição de destaque no campo da infra-estrutura de comunicação de dados para suporte a projetos de Educação a Distância via Internet. Temos empresas que hoje exportam software de educação online para o mundo inteiro. Mas ainda estamos muito aquém de nossas necessidades em peopleware, em professores e alunos capazes de ensinar e aprender online. Esta é a maior dificuldade enfrentada hoje no desenvolvimento de programas de educação online. Não faltam maquinas, não faltam programas, não faltam conexões, e, onde falta, é só comprar e instalar. Não é caro, pelo contrário, é cada vez mais barato. O que falta mesmo é gente capacitada e especializada em educação online...
É por isto que não podemos nos iludir com falsas promessas: EaD online de qualidade não é nem tão barato e nem tão lucrativo quanto muitos imaginam. A EaD convencional investe no desenvolvimento, reprodução e distribuição de material e na atuação da tutoria - um investimento muito maior nos primeiros que na segunda. E baseia sua economia no ganho em escala, isto é, na possibilidade de empregar este material, com o suporte de uma tutoria, em um número grande de alunos. Em toda parte, porém, este modelo começa a viver sua crise, pois a possibilidade do ganho em escala está diminuindo, não por causa de uma retração de mercado, pelo contrário: o número de alunos somente tende a aumentar. É o tempo de vida útil do material didático que só tende a diminuir em todos os campos do saber, pela obsolescência acelerada da informação e do conhecimento.
Porém, EAD online de qualidade investe muito mais em recursos humanos. Os custos de reprodução e distribuição de material digital são infinitamente menores que os do material impresso. Mas os custos docentes são crescentes, pois EAD online de qualidade, ao contrário do que muitos pensam, não prescinde do professor. Simplesmente não é possível fazer EaD online de qualidade com uma pequena equipe de tutores cobrando exercícios e tarefas de milhares de estudantes e confiando na automatização de rotinas didáticas via software. Isto seria apenas uma inadequada e equivocada transposição do modelo convencional de EaD para o novo meio, ignorando justamente a novidade deste meio. Educação online de qualidade requer muitas horas/aula de educadores online capazes, especializados em animação de comunidades virtuais de aprendizagem colaborativa. E isto não é barato - e nem pode ser...
Estamos vivendo um momento fecundo da história, de mudança de paradigmas, inclusive na educação. Estas mudanças são mais profundas que uma simples troca do vídeo pelo cd-rom ou da página impressa pela home page. O momento atual exige clareza nesta percepção. Há 2 mil anos Jesus Cristo já dizia que "não se põe vinho novo em odres velhos, pois o vinho novo romperá os odres, entornar-se-á o vinho e os odres se estragarão; pelo contrário, vinho novo deve ser posto em odres novos" (Lucas 5:37). O vinho novo da Educação a Distância via Internet não pode ser posto nos velhos odres dos modelos que estão em crise aqui e em todo o mundo; tem que ser posto nos odres novos de um novo paradigma educacional aberto para uma nova sociedade, uma nova economia, uma nova cultura.