Conect@ - número 1 - julho/2000


Para rir e pensar

Claudia Maria Vianna Pereira

Jornalista
Bacharel em Letras
Pós-graduanda em Educação a Distância


     Vejam esse antigo artigo veiculado no Jornal do Brasil em 23.03.83, intitulado "Cobra Epigrafada".

     "Poucos textos ultimamente publicados conseguem ser tão deliciosos e ao mesmo tempo tão dramáticos quanto a página assinada por Eduardo Almeida Reis, no último número da revista GRANJA.

     Depois de se debruçar sobre os relatórios da Carteira Agrícola do Banco do Brasil, Almeida Reis pinçou frases neles contidas e as transcreveu, tendo o cuidado de conservar a grafia e o estilo dos fiscais do Banco.

     São muitas, e aí vão reproduzidas algumas:

"- O sol castigou o mandiocal. Se não fosse esse gigante astro, as safras seriam de acordo com as chuvas que não vieram".

"- Mutuário triste e solitário pelo abandono da mulher não pode produzir".

"- Acho bom o banco suspender o negócio do cliente, para não ter aborrecimentos futuros".

"- Vistoria perigosa. As chuvas pluviais da região inundaram o percurso que foi todo feito a custo".

"- Trajeto feito a pé, porque não haviam animal por perto. Despesa grátis".

"- Foi a vistoria feita a lombo de burro com quase 8 quilômetros".

"- Está vendendo em barraca emprestada de dia, e de noite, fazendo coisa boba".

"- A máquina elétrica financiada é toda manual e velha".

"- Financiado executou o trabalho braçalmente e animalmente".

"- O gado está gordo e forte, mas não é financiado, e sim emprestado, para fins de vistoria que abri o bico".

"- O curral todo feito a caprixo. Bem parecendo um salão de baile e fantasia".

"- COBRA - comunico que faltei ao expediente do último dia 14, em virtude de ter sido mordido pela epigrafada".

"- Visitamos aquele açude nos fundos da fazenda e depois de longos e demorados estudos, constatamos que o mesmo estava vazio".

"- Os anexos seguem em separado".

"- A lavoura nada produziu. Mutuário fugiu montado na garantia subsidiária".

"- Era uma ribanceira tão ribanceada, que se estivesse chovendo, e eu andasse a cavalo, e o cavalo escorregasse, adeus fiscal!!!"

"- Tendo em vista que o mutuário adquiriu aparelhagem para processar inseminação artificial, e que um dos touros holandeses morreu, sugerimos que se fizesse o treinamento de uma pessoa para tal função".

     Almeida Reis lamentava ainda nesse artigo, o fato de o país ter sua Agricultura entregue a pessoas sem grande competência e sem comprometimento suficientes para fazer do Brasil um país agrícola, como propalava o governo.

     Através do humor, mandava seu recado ao governo, recomendando mais atenção com a Educação e maior proficiência no Ensino em todos os níveis.

     Será que de lá para cá, mudou muito a capacidade de expressão da média dos brasileiros?

     É só comparar as imprecisões e as frases desconexas dos textos daqueles fiscais, com aquelas que os jovens vestibulandos fazem hoje em suas redações nas provas de acesso às universidades, e que costumam ser fartamente publicadas pela mídia.

     O que se constata é que apesar de todo o aspecto moderno e progressista (pelo menos na teoria), de que se reveste o Ensino de hoje no Brasil, ainda não se conseguiu resolver a contento nem ao menos a crucial dificuldade de comunicação que existe entre as pessoas, por absoluto desconhecimento das bases de sua própria língua.

     Enquanto isso, exige-se sim, que o brasileiro para ter emprego, fale inglês.

     Segundo a revista Exame no artigo "I am analfabeto" de 23.04.97, "… dez entre dez empresas brasileiras exigem de seus candidatos a postos executivos o conhecimento do inglês. Raras são, as que exigem um bom conhecimento de português ". No entanto o mesmo artigo afirma que depois do modismo de considerar a utilização correta do português algo secundário e supérfluo, de uns anos para cá, as empresas começaram a dar mais ênfase à comunicação como um todo, ficando então visível o total despreparo dos executivos para produzir um texto.

     É por não saber utilizar esse instrumento (a própria língua), que executivos segundo a revista Exame, produzem: "… relatórios incompreensíveis, cartas que permitem diferentes interpretações, textos absolutamente pobres de idéias, frases desconexas, e por aí afora".(Revista Exame, pag. 122 em 23-04-97).

     Como pudemos ver, de uma maneira bem-humorada com o texto Cobra Epigrafada, o problema é antigo e a escola ainda não conseguiu resolvê-lo a contento.