Conect@ - número 2 - setembro/2000


O CASO

Prof. Sérgio Nogueira Duarte
Coluna Língua Viva
Jornal do Brasil, 27/08/1999

Colaboração de Angélica Portugal
Pós-graduanda em Educação a Distância


 

O leitor assíduo da Língua Viva já deve ter percebido a paixão deste colunista por temas polêmicos.

Eu realmente adoro enfrentar assuntos que provocam discussão. Para mim, é um meio de aprendizado e, conseqüente, crescimento.

E nesse aspecto não poderia faltar a crase.

Depois de muito sofrer, o brasileiro consegue finalmente entender o uso do acento indicativo da crase: fusão de duas vogais iguais (preposição "a" + outro "a").

O caso mais freqüente de crase é a contração da preposição "a" com o artigo definido feminino "a(s)".

Aí, quando o brasileiro acha que sabe tudo de crase, ele se depara com alguns "probleminhas". O certo é a vista ou à vista, a distância ou à distância?

O grande mestre Napoleão Mendes de Almeida em suas Questões vernáculas dizia não haver crase. Segundo ele, não há artigo definido. Em "a vista", a prova da ausência do artigo está no correspondente masculino "a prazo".

No caso de "a distância", a ausência do artigo definido se deve à idéia de distância indeterminada. Se fosse uma distância definida, haveria crase: "Estamos à distância de cinco metros".

Por outro lado, existem autores que defendem a crase. Entre eles está o mestre Adriano da Gama Kury que, no seu livro Ortografia, pontuação, crase, afirma: "Desde tempos antigos da nossa língua se vêm usando com acento no a (ou com dois a, quando ainda não era generalizado o uso dos acentos) numerosas locuções adverbiais e prepositivas formadas de substantivos femininos, tais como à custa de, à espada, à farta, à fome, à pressa. à toa, às avessas, às cegas, às claras, às pressas, às vezes e tantas mais.(...) Além disso, cumpre levar em conta estes dois fatores que aconselham a utilização do acento no a nas locuções com nomes femininos:

  1. O uso tradicional do acento pelos melhores escritores da nossa língua;

  2. A pronúncia aberta do a, em Portugal, nessas locuções, tal como qualquer a resultante de crase - diferente do timbre fechado do a pronome, artigo ou preposição. (...)

De quanto se expôs acima, deve-se recomendar o uso do acento no a em locuções como as seguintes (adverbiais, prepositivas, conjuntivas): à beça. à deriva, à distância, à medida que, à moda de, à procura de, à proporção que, à revelia à toda, à vista... "

Se os grandes mestres divergem, o que me resta é assumir uma posição que pode perfeitamente mudar, pois estou aberto a novas informações e a fortes argumentos.

No meio jornalístico, não posso responder "tanto faz".  De nada adianta afirmar que fulano diz "sim"e que sicrano diz  "não".

É inaceitável usarmos "à vista" na primeira página e "a vista" na página 3. Somos criticados quando escrevemos "ensino à distância" no título e "a distância"no corpo da matéria. Necessitamos de uma uniformidade de pensamento, de um padrão, mesmo que isso não agrade a todos.

Em razão disso, com o intuito de simplificar e de facilitar o nosso trabalho no JB, adotamos a crase, ou seja, sugerimos o uso do acento grave para todos os adjuntos adverbiais femininos: à vista (de modo), à distância (de lugar), às vezes (de tempo), à mão (de instrumento)...

Isso não significa que somos os donos da verdade e que estão errados todos aqueles que defendem o uso de "a vista" e "a distância".

O tema é polêmico, existem opiniões divergentes e não podemos reduzir a questão a uma simples discussão de certo ou errado.

Hoje eu penso assim, amanhã...