Conect@ - número 3 - novembro/2000


O ARQUIVO DE GAVETINHAS

Andrea Cecilia Ramal 

Pesquisadora do Centro Pedagógico Pedro Arrupe
Autora de Histórias de gente que ensina e aprende
Doutora em Educação - PUC/RJ

Diretora da Instructional Design.


 

Era uma menina muito organizada: achava que já tinha nascido assim. Mas na escola aperfeiçoara sua própria técnica.

Tinha decidido, desde muito criança, organizar a própria cabeça em gavetinhas, como num arquivo.

Visualizava mentalmente as pastas, com as respectivas saliências e os papéis caprichados que indicavam o conteúdo de cada uma: sonhos, projetos, sentimentos, lembranças... 

A cada dia de aula, conforme fossem a matéria e o professor, abria apenas a gavetinha necessária.

Às vezes, em alguma redação ou numa pecinha teatral de fim de ano, tirava certas coisas da gavetinha dos sentimentos e da pasta das lembranças. Outras vezes, (bem menos) das pastas de projetos e de sonhos. Usava, e depois guardava tudo intacto, sem qualquer acréscimo ou modificação.

Mas a maior parte das vezes quase nem usava essas gavetas, pediam-lhe que abrisse apenas as pastas da lógica, do cálculo e do pensamento organizado.

Um dia, preparando o material, decidiu não levar mais para a escola a chave das outras gavetinhas.

Não precisava...


Texto extraído do livro HISTÓRIAS DE GENTE QUE ENSINA E APRENDE. Ramal, Andrea Cecília, São Paulo: EDUSC, 1999, pp: 27-28. edusc@usc.br